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Caminho Português de Santiago a partir de Valença do Minho, com roteiro de turismo nos arredores do Porto

Caminho Português de Santiago a partir de Valença do Minho, com dias de turismo na região do Porto, Vale do Douro, Fátima, Barcelos, Vigo e Ilhas Cíes
Caminho Português de Santiago a partir de Valença do Minho, com dias de turismo na região do Porto, Vale do Douro, Fátima, Barcelos, Vigo e Ilhas Cíes
Em maio a Marina fez uma viagem de 2 semanas combinando o Caminho Português de Santiago com alguns dias de turismo nos arredores do Porto. As 3 mulheres caminharam 125Km de Valença do Minho até Santiago de Compostela, e neste post ela nos conta como foi o Caminho, o roteiro que fizeram e as experiências que tiveram.

Com a palavra, Marina Stoetzer Echeverria:

Todas as viagens que faço, de certa forma, começam de forma semelhante: a vontade de conhecer o mundo, combinada com uma passagem aérea em promoção e muito planejamento, para fazer tudo caber dentro do espaço de tempo e do nosso orçamento disponível. 

Mas, dessa vez, foi um pouco diferente. Não sei explicar de onde veio o chamado, mas um dia ele apareceu. Depois de muito pensar e ponderar, convidei minha mãe e uma prima para se juntarem a mim, afinal, não queria fazer o Caminho sozinha. As duas imediatamente aceitaram e formamos o nosso trio.

Decidimos viajar na 2ª quinzena de maio, por ser uma época de temperatura intermediária. 

Tínhamos apenas 2 semanas de férias disponíveis e resolvemos combinar o Caminho de Santiago Português com alguns dias de turismo pela região do Porto

Dessa forma, decidimos fazer a caminhada saindo de Valença do Minho, com duração de 6 dias (125Km) e aproveitar o restante dos dias para conhecer um pouco de Portugal.

Reservas de hospedagem no Caminho de Santiago

Sou neurótica com o planejamento dos meus roteiros e foi uma experiência interessante, porque no Caminho, o desapego é um dos aprendizados. 

Planejei os primeiros dias de turismo em Portugal com muitos detalhes, mas, quanto ao roteiro do Caminho de Santiago, me desafiei a desapegar do planejamento. 

Fiz apenas questão de reservar os albergues com antecedência, pois queríamos ficar em alguns bem específicos pelo caminho. 

Optamos por não levar sacos de dormir e tínhamos como premissa ficar nos albergues bem localizados. 

Depois de muito pesquisar, percebi que os albergues costumam ficar cheios rapidamente em maio e, por isso, fizemos as reservas antecipadas

Durante o caminho, percebemos que as reservas foram fundamentais. Muitos peregrinos que encontramos pelo Caminho chegavam nas cidades e, já exaustos, tinham que ir de albergue em albergue, pois estavam todos lotados. Depois de um dia caminhando 20Km, o fato de não ter uma reserva significa ter que andar mais 1 ou 2Km adicionais para encontrar um local de descanso, o que não era o nosso desejo.

Para quem deseja ir sem reservas, o conselho é acordar cedo e sair antes dos outros peregrinos. Dessa forma, chega-se ao próximo destino mais cedo e consegue-se uma reserva mais fácil. ]

Outra opção é tentar reservar o albergue durante a caminhada do dia. 

Os albergues nem sempre têm um sistema online de reservas, sendo muitas vezes necessário enviar e-mail e aguardar por uma resposta. Pode ser uma vantagem para quem não quer ter o compromisso de chegar a um destino específico. Por outro lado, é uma desvantagem ter essa preocupação ao longo do dia, como vimos acontecer com algumas pessoas. 
No fim, achei que valeu a pena termos reservado com uma boa antecedência: havia garantido os melhores albergues, com os melhores preços.
Existem obviamente muitas possibilidades de outras acomodações pelo caminho, inclusive hotéis de todas as categorias. Mas os albergues parecem ser o lugar ideal para conhecer outros peregrinos, partilhar as experiências do dia, as dificuldades, as alegrias e forjar amizades duradouras.

Li bastante sobre pequenos percevejos, que eventualmente se hospedam em roupas e bagagens dos peregrinos e que podem ser transportadas para dentro dos albergues. Porém, pelos locais onde passamos, nos sentimos muito seguros em relação a isso. Eram locais muito limpos, havia disponibilidade de roupa de cama limpa, cobertores novos e toalhas de banho em ótimo estado.

os primeiros passos, com nossas mochilas

Roteiro de viagem Caminho Português de Santiago e turismo na região do Porto

Pesquisei muito sobre o caminho. 

Vi documentários, vídeos, participei de fóruns de discussão. As informações acabam nos deixando confusos, pois cada um relata algo diferente: um diz que a mochila tem que ser grande, outro diz que tem que ser pequena. Um diz que é melhor usar bota, o outro tênis. Para tratamento de bolhas então, existem conselhos dos mais diversos espalhados pela internet, inclusive alguns bastante duvidosos. 

Abaixo, vou detalhar um pouco de como foi o nosso roteiro e as nossas experiências. Espero que possa ajudar alguém, que talvez esteja se sentindo um pouco inseguro, assim como nós nos sentimos no começo.

Dia 1

Chegamos no Porto às 11hs, num voo direto, saindo de Guarulhos. 

Do aeroporto, fomos com a linha E do metrô até a Estação Trindade, que ficava a apenas 700m do nosso hotel. 

Para a nossa estadia no Porto, reservamos o Hotel Ceuta Terrace Suites

É um pequeno hotel, que fica no último andar de um edifício e possui apenas 7 quartos. 

Os anfitriões são muito simpáticos. 

Os quartos são excelentes, muito espaçosos e limpos. 

O café da manhã não é farto, mas todas as opções são preparadas com muito carinho e qualidade. 

Nos sentimos acolhidos como se fôssemos da família. Fomos recebidos com abraços calorosos, recebemos dicas de passeios, se preocuparam com a qualidade do nosso sono. 

É um excelente hotel, com um bom custo benefício, avaliando localização, conforto e preço.

Depois de descansar um pouco, caminhamos até Vila Nova de Gaia, passando pela Ponte de D. Luiz. 

Visitamos o Jardim do Morro, que estava cheio. Era domingo, o clima estava gostoso, e o Jardim estava repleto de famílias e turistas, todos curtindo música ambiente e o clima de final de tarde. 

Como era aniversário de 60 anos da minha mãe, reservei o restaurante Tempero D´Maria, que havia sido muito bem recomendado. Foi super importante termos feito a reserva, porque às 18hs a fila do restaurante já estava grande. 

A comida estava espetacular, o atendimento muito simpático. Tomamos vinho e demos boas risadas. 

Na volta ao hotel, o plano era subir pelo Funicular dos Guindais, que fica logo após a Ponte de D. Luiz, porém ele tinha acabado de fechar. Acabamos subindo pelas Escadas de Codeçal. 

Mesmo à noite, achamos a cidade super segura.

Vista da Ponte D. Luiz
vista da Ponte Dom. Luiz

Vista de Nova Vila de Gaia
vista de Nova Vila de Gaia

Porto e suas ruelas estreitas

Dia 2

Começamos o nosso dia com um tour guiado pelo Porto, com a fantástica Rita. 

A Rita é espetacular e é a melhor guia do mundo. Super querida, super tranquila e simpática. Ela não apenas nos acompanhou como guia em Porto, mas nos levou ao Douro, para Fátima e para Barcelos. Ela também já fez o Caminho de Santiago, e nos deu muitas dicas. Torceu por nós, se preocupou por nós. No final, estávamos sentindo que a Rita era da nossa família e nós éramos da família dela. Ela tem um site chamado O Porto Encanta e se especializou em atender turistas brasileiros.

Nos encontramos com Rita no hotel, para um tour no centro histórico do Porto

Passamos por tantos lugares legais nesse dia, e a Rita foi nos contando toda a história de Portugal e do Porto, sobre como é o dia-a-dia na cidade. Nos mostrou ruínas, muralhas, mirantes, azulejos. Parou conosco na Catedral da Sé, para comprar a Credencial do Peregrino, que usaríamos durante o Caminho de Santiago. Muitos peregrinos iniciam sua jornada nessa Catedral, demorando aproximadamente 2 semanas para chegar a Santiago de Compostela.
Em relação à Credencial do Peregrino: ela pode ser adquirida em vários locais. Praticamente toda igreja e todo albergue têm a credencial para vender. Não é necessário fazer a aquisição da credencial já no Brasil. É importante apenas não esquecer de carimbar pelo menos duas vezes ao dia durante a caminhada. Os carimbos estão disponíveis em praticamente cada estabelecimento do Caminho: lojas, acomodações, igrejas e restaurantes.
Nesse dia, a Rita também nos mostrou os melhores doces, das melhores confeitarias do Porto, explicando seu significado. 

Ao final, nos deixou no Mercado do Bolhão, dando dicas do que provar, entre queijos e vinhos. 

Não deixe de experimentar o queijo estrela com doce de abóbora e queijo com fios de ovos. De comer rezando!!

À noite, fomos para o Cais de Ribeira, para jantar no restaurante Terra Nova

É um restaurante pequeno, com comida muito saborosa. Os garçons eram brasileiros e super simpáticos. 

Aliás, achamos todas as pessoas muito simpáticas no Porto. Sempre nos recebiam com um grande sorriso no rosto.

city tour Porto - Catedral da Sé

azulejos portugueses
azulejos portugueses

a bela arquitetura das construções do Porto

bacalhau no Mercado do Bolhão

Dia 3

Saímos às 9hs do hotel, com destino ao Vale do Douro, acompanhados da Rita, que havia alugado um veículo para nos guiar neste dia. 

Não ter que dirigir nesse dia foi fundamental para que pudéssemos aproveitar a degustação de vinhos, fabricados a partir das uvas dessa região. 

A Rita nos levou também para uma degustação de azeites de oliva, fizemos um passeio de barco pelo Douro, almoçamos em um restaurante típico à margem do rio, conhecemos como é produzido o vinho do Porto, seus diferentes tipos, fizemos degustação e rimos muito embaladas pelo teor alcóolico do vinho. 

Conhecemos vistas e mirantes lindos pelo caminho. 

No retorno, estávamos exaustas. 

O vinho nos derrubou no retorno para o Porto e ainda bem que a Rita estava dirigindo para nós. 
Nesse dia, ela ainda nos levou até a loja Decathlon, pois queríamos comprar os nossos bastões de caminhada. Estávamos em dúvida em levar do Brasil ou comprar em Portugal. No fim, definimos comprar em Portugal e pagamos EUR 7,00 por cada bastão. 
Achamos os bastões bem importantes para a caminhada, o que explico mais à frente.

passeio de barco pelo Rio Douro
passeio de barco pelo Rio Douro

a bela paisagem do Vale do Douro

Dia 4

Nos despedimos do Porto bem cedo. 

A Rita nos buscou e nos acompanhou até Fátima

Inicialmente, conhecer Fátima não estava no roteiro, mas era um sonho da minha mãe. O dia inteiro dedicado à Fátima foi emocionalmente intenso. 

Conhecemos a história dos pastorinhos, entramos na casa onde moravam e visitamos os locais da aparição da Nossa Senhora. São locais carregados de uma energia inexplicável. 

Fomos ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, que é um complexo gigantesco. 

Local de muito silêncio, paz, tranquilidade e oração. Nos emocionamos todas juntas.

Tivemos a impressão de ter poucas pessoas visitando o santuário de dia. 

Compramos alguns souvenirs, as velas para a procissão e fomos ao hotel que havíamos reservado - Hotel Anjo de Portugal, que fica situado a apenas 550m do Santuário. 

A procissão de luzes tinha hora marcada para iniciar, às 21:30hs. 

Chegamos ao Santuário às 21hs, nos reunimos na Capelinha das Aparições para rezar o terço e o local ainda estava bem vazio. 

Porém, ao se aproximar do horário do início da procissão, as pessoas começaram a aparecer, em centenas. Pessoas de todas as idades, vindos dos mais diversos lugares do mundo. Todos carregando suas velas, que pontualmente às 21:30hs foram acessas. 

A procissão é um momento muito bonito, de grande fé e devoção. Os fiéis caminham em comunidade pelo Santuário, durante aproximadamente 30 minutos. 

Nesse dia, as orações eram pela paz no mundo.

Santuário de Fátima
Santuário de Fátima, Portugal

Dia 5

Este era o dia em que chegaríamos a Valença do Minho, de onde iniciaria a nossa caminhada pelo Caminho Português de Santiago. 

Tomamos café da manhã no hotel e, às 9hs, saímos rumo norte. 

Porém, antes de chegarmos a Valença do Minho, a Rita ainda queria nos mostrar Barcelos, conhecida como a cidade do Galo. 

Chegamos em Barcelos por volta das 11hs e visitamos a Feira de Barcelos

Essa feira é a maior feira a céu aberto do país, e oferece uma vasta diversidade de produtos, incluindo roupas, sapatos, artesanato, alimentos, bebidas e até móveis. 

Realizada toda quinta-feira no centro da cidade, a feira é um local movimentado, rico em cultura e história. 

Também conhecemos alguns locais históricos da cidade, como a ponte medieval e o Cruzeiro do Senhor do Galo, onde Rita nos apresentou a lenda do Galo de Barcelos
Conta a história de um peregrino galego que, injustamente condenado à forca, declarou a sua inocência, afirmando que um galo assado sobre a mesa do juiz cantaria no momento da sua execução. O galo cantou, o nó da forca falhou e o homem foi salvo. 
Anos mais tarde, o peregrino voltou a Barcelos para construir o Cruzeiro do Senhor do Galo em agradecimento, um monumento que hoje representa a lenda. E a lenda representa o Galo, símbolo de Portugal.

Feira de Barcelos

souvernis de Barcelos - Galo, o símbolo de Portugal

Começou a chover e tivemos que interromper a visita guiada a céu aberto. 

Nos despedimos da Rita, que nos deixou na estação de trem, de onde partimos para Valença do Minho. 

O trecho tem aproximadamente 1:15h de duração. Chegamos às 18hs e pegamos um táxi até o Hostel Bulwark, que fica dentro da Fortaleza de Valença.

Essa foi a nossa 1ª experiência em um hostel. Não tínhamos ideia do que nos esperava. 

Fomos muito bem recebidos no hostel, que é muito limpo e bem organizado. Recebemos as explicações do funcionamento do hostel e nos mostraram os números das nossas camas. 

Saímos em busca de um mercado, para comprar o jantar, o café da manhã e o lanche do caminho. 
Os albergues são sempre equipados com cozinhas comunitárias, nas quais existem todos os utensílios necessários, à disposição dos hóspedes. Após o preparo, cada peregrino deve deixar limpo o que usou.
Na ida ao mercado, exploramos a Fortaleza de Valença e percebemos que deveríamos ter deixado mais tempo para conhecer o lugar. 

A fortaleza é enorme e muito bonita. 

Cada um dos seus cantinhos merece ser explorado com calma. Infelizmente tivemos que nos apressar, porque estava escurecendo e o mercado iria fechar.

Fortaleza de Valença

exploramos a Fortaleza de Valença e percebemos que deveríamos ter deixado mais tempo para conhecer o lugar

No retorno ao albergue, jantamos e percebemos que ainda teríamos que organizar nossas mochilas para o dia seguinte. 

Já passava das 21hs e nossas mochilas estavam no quarto, onde já havia pessoas dormindo. Para não incomodar, organizamos as mochilas no saguão do albergue. Além de nós, havia apenas mais um hóspede no saguão, que estava nos observando, enquanto lia e tomava um copo de vinho.

Vivemos em uma comunidade alemã, no sul do Brasil. A língua que falamos entre nós no dia a dia é um dialeto alemão, mantido como língua materna com muito orgulho. Em determinado ponto, o hóspede que estava a nos observar nos abordou, perguntando, também em alemão, se iríamos levar tudo aquilo que estava no chão nas nossas mochilas. 

Sem entender direito a pergunta, respondemos que sim. Ele se apresentou. Bernd, que era da Alemanha, nos explicou que cada hostel oferecia um serviço de transporte de mochilas, com toda segurança, por apenas alguns euros. 

Conversamos durante algum tempo, falando sobre o Brasil, sobre a Alemanha, sobre nossa 1ª vez no Caminho e sobre as várias vezes que ele já tinha feito o Caminho. 

Bernd insistiu, mais uma vez, que não levássemos as mochilas, mas fomos resistentes, dizendo que daríamos conta. 
Terminamos a conversa, e ele nos advertiu, uma última vez, dizendo: “Eu entendo vocês. Também carreguei muito peso na minha primeira vez. Vocês irão aprender.”
Dando risada, se retirou.

organização das mochilas no saguão do albergue

A 1ª noite no hostel foi um pouco estranha. 

Dormimos com outras mulheres no quarto, totalmente desconhecidas. Sons de ronco, de respiração, de pessoas levantando para ir ao banheiro a toda hora. 

É fundamental, para aqueles que têm sono leve, levar algum medicamento para dormir, pois o descanso entre um dia e outro é muito importante para a recuperação do corpo, após o longo trecho diário da caminhada.

Dia 6 - 1º dia no Caminho Português de Santiago

Caminhada de Valença do Minho até O Porriño – 19Km – 5 horas – Dificuldade Baixa

Por volta das 5hs da manhã, despertadores começaram a tocar aqui e ali e as pessoas começaram a arrumar suas mochilas e deixar o hostel, rumo às suas caminhadas. 

Nós levantamos às 6:30hs, sem entender porque as pessoas estavam partindo tão cedo. Nos arrumamos, tomamos café, nos enrolamos conversando com outra brasileira que encontramos no café da manhã. 

Ao deixar o hostel, descobrimos que existe uma diferença de fuso horário entre Portugal e Espanha, e que já eram 9hs da manhã. Estávamos super atrasadas.

Estava garoando, mas demos o 1º passo, nos sentindo muito animadas.

Logo nos atrapalhamos com as capas de chuva. Mal havíamos caminhado 500 metros e já tivemos que tirar as mochilas para procurar as capas, que tinham ficado em um local nada estratégico na arrumação do dia anterior.
Em relação à capa de chuva, alguns cuidados: de preferência, comprar um poncho de chuva. Vale cada centavo, pois são feitos de um plástico mais grosso. Aquelas finas, descartáveis, rasgam com muita facilidade. 
Em determinados dias, quando São Pedro resolve fazer chover e parar de chover a cada meia hora, o “coloca e tira a capa de chuva” pode ser um verdadeiro teste de paciência. 

O material mais grosso e o formato de poncho permitem acomodar a mochila por baixo da capa, fazendo com que a água escorra sem molhar a barra da calça.

como se coloca essas capas de chuva?

Com as capas devidamente no lugar, mas ainda nas primeiras ruas dentro da fortaleza, nos perdemos com fotos e mais fotos. Começamos a perceber que não havia mais peregrinos entre nós e que precisaríamos acelerar o passo.

O fato de termos levantado mais tarde, termos nos enrolado na saída do hostel e as paradas constantes para fotos nos trouxeram problemas depois, pois terminamos a caminhada no horário mais quente do dia. 
Com isso, aprendemos nossa 1ª lição: sair cedo do albergue, de forma a iniciar a caminhada diária no mais tardar às 7hs da manhã, para evitar o calor e o sol do início da tarde.
Todas estávamos equipadas com nossas mochilas, que estavam pesando em torno de 7Kg, ou seja, aproximadamente 10% do peso do nosso corpo. 

Carregávamos poucas roupas, nossos medicamentos, itens de higiene, água e lanche. Apenas o essencial e, acredite, o essencial que estávamos carregando ainda era muito. 

Não é necessário levar muita roupa, mas, de preferência, levar roupas próprias para a prática de exercícios físicos, que favoreçam a transpiração. 

Roupas de algodão podem parecer confortáveis, mas são muito quentes. 

Levamos 3 camisas de manga comprida, por causa da exposição ao sol, chapéu e óculos de sol. Duas calças, 3 meias e roupa íntima. Quanto menos, melhor, porque há máquinas de lavar roupas em praticamente todos os albergues.

Essa 1ª etapa que fizemos do Caminho sai de Valença do Minho e passa por Tui

Caminhamos pelas suas ruas históricas para então iniciar a subida em direção ao norte. Depois, existe uma descida que leva até O Porriño.

Havíamos comprado, no dia anterior, alguns chocolates e bolachas para comer na caminhada. Após 2hs de caminhada, tive que parar, porque estava com hipoglicemia. Assim que eu comia chocolate, me sentia melhor. Caminhava mais um pouco e a hipoglicemia atacava novamente. 

A minha prima, experiente em trilhas, havia se preparado de forma diferente. Carregava, em sua mochila, frutas, iogurte e castanhas, que liberam energia de forma mais lenta. Foi o que me salvou e me permitiu continuar até o fim desse dia. Levei um puxão de orelhas e, nos dias seguintes, aprendi a tomar café da manhã, incluindo ovos. 

Também sempre que parávamos para almoçar ou fazer algum lanche, incluíamos alguma proteína na nossa alimentação. Depois dessa dica, não tive mais problemas com hipoglicemia pelo Caminho.

Após 5hs de caminhada, ainda não tínhamos chegado até O Porriño. Nos últimos 4Km de caminhada, as nossas costas estavam doendo muito, com o peso das mochilas. Já eram 14hs da tarde, e estava fazendo muito calor. Com o peso das mochilas, as paradas para descansar estavam cada vez mais frequentes.

Nesse dia, nos deparamos com muitos peregrinos pelo caminho, e ninguém, absolutamente ninguém além de nós, levava mochilas tão grandes. 

As nossas mochilas eram especiais, ergonomicamente projetadas para as costas femininas, com fechos especiais acima dos seios e muitos outros detalhes, que, no final, não serviram para muita coisa.
Praticamente todas as pessoas despacham suas mochilas no início do dia e levam para a caminhada apenas os itens mais necessários: celular, água, remédios, documentos, dinheiro/cartão e algo para comer. 
Nesse dia aprendemos que o preço ou o modelo da mochila não importa. Que o caminho não deve ser uma privação, nem uma penitência, a não ser que seja isso que você queira. 

O caminho é uma experiência enriquecedora, a caminhada deve ser proveitosa e não precisa ser um sofrimento constante.

Também aprendemos que o Caminho nos força a viver com o mínimo e a valorizar as pequenas coisas. E, acima de tudo, a ouvir os conselhos das pessoas mais experientes. 

Entendemos, enfim, o que o Bernd quis nos dizer no dia anterior.

Ou seja, se tiver condições, despache a sua mochila.

Com todo o peso da mochila, minha mãe começou a sentir bolhas nos dedos dos pés. Porém, ela não queria parar, achando que nos atrasaria ainda mais sob o sol escaldante. Só depois de insistirmos foi que ela acabou cedendo e aceitando tirar os tênis, para vermos o que estava acontecendo. Era tarde demais...as bolhas já estavam lá

Foi um sufoco ver ela andar o último quilômetro, até a chegada no albergue. Ela foi forte e não desistiu, mas era nítida a dor que estava sentindo.

Isso nos leva à mais uma lição do dia: cuide com muito carinho dos seus pés.

Cada indivíduo é diferente. 

Alguns evitam bolhas com meias especiais: recomendo muito as de lã de merino, que não deixam os pés transpirarem, absorvendo a umidade e controlando a temperatura. Além disso, não dão chulé, kkkk... 

Outros passam vaselina, talco ou hidratante nos pés. 

Indiferente do que fizer, é fundamental, ao 1º sinal de qualquer coceira ou dor, interromper a caminhada para aplicar os adesivos anti-bolhas. Existem os adesivos genéricos de hidrocoloide. Compramos de várias marcas, mas o melhor mesmo são os da marca Compeed. Nem se compara com qualquer outro. 

Enquanto os genéricos soltam ao tomar banho ou suar, os da Compeed são mais resistentes e se soltam apenas após alguns dias, garantindo a melhor proteção para as bolhas. E o resultado é surpreendente, funciona mesmo. 

No caso da minha mãe, aplicamos Compeed nos dedos dos pés e, no outro dia, ela já não sentia dor.

Com o passar dos dias caminhando, é normal começar a sentir dor também na sola dos pés. 

A pele vai ficando mais frágil com o atrito nessa área. 
A Compeed tem adesivos para essa região do pé, que protegem muito bem essa área, evitando a formação de bolhas grandes que podem acabar com sua caminhada. O tal do Compeed é um investimento. Caso não ache no Brasil, é bastante fácil achar nas farmácias do Caminho, com preços até mais atrativos.
Chegamos em O Porriño por volta das 15hs da tarde, exaustas. 

Fizemos check-in no Albergue Fonte dos Aloques. Muito limpo e bem organizado. Tomamos um banho e caímos na cama. 

Acordamos por volta das 18hs e, literalmente, não conseguíamos nos mexer. Cada parte do nosso corpo doía e era somente o 1º dia. 

Tomamos um remédio para dor nas costas e resolvemos que, dali em diante, iríamos despachar as mochilas todos os dias. 

Nos arrastamos para fora da cama para conhecer a cidade de O Porriño. Andamos pelas ruelas da cidade, jantamos, tomamos um vinho e depois voltamos ao albergue, para descansar.

Terminamos o dia pensando em quantas lições tínhamos aprendido, em tão poucas horas. 

O 1º dia é de pura adaptação. 

O ânimo das primeiras horas de caminhada é substituído pelo desespero dos 2 últimos quilômetros do dia. 

Devido às dificuldades e falta de experiência, não aproveitamos o caminho como deveríamos ter aproveitado nesse 1º dia. 

O cansaço não nos deixou curtir o caminho e, ao fechar os olhos, uma sensação de medo e apreensão tomou conta: como será que vamos continuar a caminhada amanhã, sentindo tanta dor e com bolhas nos pés?

Dia 7 - 2º dia no Caminho Português de Santiago

Caminhada de O Porriño a Redondela – 16.4Km – 4 horas – Dificuldade Baixa

Incrível!! Acordamos sem nenhuma dor: nem nas pernas, nem nas costas e também não havia mais dor nas bolhas. Que maravilha. Estávamos renovadas.

Preparamos um café da manhã no albergue e, nesse dia, saímos mais cedo. 

Deixamos O Porriño às 7hs, em direção à Redondela, debaixo de uma chuva leve. 

Era uma das coisas que nos preocupava no Caminho, mas percebemos que caminhar na chuva tem a sua beleza. A chuva era até revigorante, em momentos de muito calor. 

No trajeto, uma povoação quase no topo da colina nos recebeu com várias casinhas em pedra e ruas romanas preservadas ao longo do tempo. 

Passamos por um Millario (ou 'mojón'), uma das primeiras marcas romanas do Caminho. Esses marcos físicos, geralmente de pedra ou concreto, serviam como indicadores de distâncias na época do Império Romano. 

Nesses locais, alguns peregrinos costumam deixar suas pedras, que carregam pelo caminho, como sinal de libertação, daquilo que já não lhes serve e para poderem seguir adiante mais leves.

Nós também carregávamos nossas pedras. Algumas carregaram até mais de uma, prontas para serem libertas assim que a hora chegasse.

pedras deixadas pelo caminho

Por vezes, ouvia-se o sino das igrejas pelas vielas e notamos que, agora sim, estávamos começando a curtir a experiência do Caminho, observando melhor o que estava à nossa volta: o horizonte, o barulho dos pássaros e dos riachos dentro dos bosques por onde o caminho passa, a pacata vida nas pequenas vielas, o cheiro das plantas e flores. 

Pessoas passavam conversando: às vezes em pares, às vezes em grandes grupos. 

Muitos também faziam sua peregrinação sozinhos. 

Alguns iam devagar, outros de forma muito rápida, porém, todos desejando Buen Camino ao cruzar.

Caminho pelos bosques

flores pelo Caminho

Não vimos nenhum sinal do Bernd, o alemão que encontramos no 1º dia, e nem da brasileira. Era como se estivéssemos seguindo por caminhos totalmente diferentes, mesmo sabendo que estamos todos no mesmo lugar.

O trajeto em si é muito bem sinalizado e não há risco de se perder. Marcado por flechas amarelas, pedras ou conchas que indicam o caminho a todo momento. 

Também nos sentimos muito seguras em todas as etapas. 

Algumas vezes caminhávamos junto com muitas pessoas e, em alguns momentos, estávamos completamente sozinhas. Porém, em nenhum momento vimos ou percebemos qualquer ameaça à nossa segurança. 

Tomamos um caminho errado uma única vez e, imediatamente, um carro passou e nos avisou, corrigindo a rota. Tivemos que voltar umas 2 quadras apenas.

sinais do caminho por todos os lados

Antes de chegarmos à Redondela neste dia, enfrentamos uma descida bem intensa, também entre casas e bosques, e nos sentimos mais seguras usando os bastões

Não sabíamos se seriam úteis ou não, quando os compramos. 

Quando pesquisamos sobre o seu uso, algumas pessoas recomendavam, outros condenavam. 

No 1º uso, nos sentimos desajeitadas com eles, mas, depois de um tempo, os bastões acompanham o ritmo do nosso corpo na caminhada, como se fossem parte integrante do nosso corpo. 

Achamos que foram fundamentais para nos apoiar em alguns obstáculos: garantiram mais segurança para caminhar sobre pedras escorregadias, nos apoiaram nas subidas e descidas, nos garantiram sustentação para pular pequenos riachos ou poças de lama. 

Nos apoiaram principalmente em descidas íngremes, quando os joelhos já estavam falhando. 

Não precisam ser os mais caros, nem com material especial. Os mais baratos da Decatlon, que compramos no Porto, serviram muito bem e voltaram intactos para casa, depois da caminhada. 

Se for comprar, escolha um modelo confortável ao toque, para evitar que o atrito cause bolhas nas mãos. 

Algumas pessoas também usavam pedaços de galhos como bastões improvisados.

caminhada com bastões entre as pedras molhadas

Chegamos em Redondela por volta das 13hs, almoçamos e fizemos check-in no Albergue Santiago de Vilavella

Foi o maior albergue em que ficamos. Parece um grande barracão, com divisórias internas, onde, dentro de cada divisória, dormem 4 pessoas, divididas entre homens e mulheres. 

Recebemos uma divisória somente para nós 3. 

Diferente dos outros albergues mais silenciosos, nesse albergue consegue-se escutar todo o movimento e conversas das pessoas. 

Tomamos banho, lavamos nossa roupa, descansamos um pouco. 

Ao acordar, por volta das 17hs, novamente sentimos muita dor. 

Começamos a notar um padrão: após parar para descansar, o corpo doía muito ao voltar a se movimentar. Após alguns dias, a dor pode ser intensa e remédios são fundamentais para evitar o desconforto. 

Às vezes, apenas uma simples parada de 15 minutos para tomarmos um café ao longo do caminho era motivo suficiente para sentirmos dor ao continuar. 

Parece que, ao parar, o corpo esfria, e aqueles primeiros minutos seguintes da retomada da caminhada doem pra valer. 

Tente manter o ritmo das caminhadas, de forma que não tenha que parar tantas vezes. 

Com o passar dos dias, aprendemos a seguir no nosso ritmo, fazendo, em média, entre 4 e 4,5Km por hora. 

Existem paradas e banheiros por todo o Caminho, então não é preciso se preocupar em parar a toda hora. 

Os remédios que trouxemos do Brasil, prescritos por um ortopedista, nos ajudaram muito a chegar ao final: usamos Miosan, Flancox e Anador, e foi muito necessário, ainda mais a partir do 3º dia, pois, além da dor nas pernas ao final do dia, comecei a ter problemas com o meu joelho direito.

Algumas pessoas falam que não se deve tomar remédio para a dor durante o Caminho, pois a dor faz parte da experiência e da superação. 
Cada um acredita naquilo que quer, mas, para nós, a experiência não precisava ser mais dolorosa do que já estava sendo fisicamente.
Nesse dia, após descansarmos no hotel, fomos conhecer a cidade de Redondela. 

Estava tendo o Festival Internacional de Títeres de Redondela, um dos maiores festivais de marionetes do mundo, com um desfile de marionetes gigantes pela rua principal. 

Os locais estavam lá, curtindo o festival junto com os turistas. Comemos churros deliciosos e depois saímos para jantar.

Festival de Títeres
Festival de Títeres em Redondela

Dia 8 - 3º dia no Caminho Português de Santiago

Caminhada de Redondela a Pontevedra – 19,6Km – 6 horas – Dificuldade Média

Saímos de Redondela às 7hs, já sabendo que o dia seria um tanto mais árduo do que os dias anteriores. 

Da mesma forma como no dia anterior, o Caminho passa por pequenas vielas, casas com vinhedos, bosques, subidas e descidas. 

Foi um dia no qual várias pessoas cruzaram nosso Caminho, e algumas delas, por alguma razão inexplicável, permaneceram conectadas a nós até hoje.

Redondela

as belezas do caminho

O 1º encontro foi com Micha, uma professora alemã, que estava sozinha no Caminho, refletindo sobre sua vida profissional até aquele momento. 

Depois encontramos o Michael, um escocês que estava caminhando ao nosso lado de forma silenciosa durante algumas horas, como se tivesse curiosidade em saber mais sobre nós. 

Quando enfim começamos a conversar, ele disse que percebeu que éramos brasileiras, por uma bandeira do Brasil nas nossas mochilas. Nos contou que estava sozinho no caminho, pois sua esposa, também brasileira, estava no Brasil, em São Paulo, cuidando da sua mãe doente. 

Quando falamos sobre nossa cidade, muito surpreso, ele nos contou que sua esposa tinha parentes na cidade em que moramos e citou até o sobrenome da família, muito conhecida na nossa região. 

Percebemos como o mundo é pequeno. 

Qual é a chance de um escocês que nunca vimos na vida, conhecer a nossa pequena cidade do interior do Paraná?

Nesse dia, também paramos em um café, que estava lotado. Fizemos um lanche por lá e, ao levantarmos, cedemos lugar a um grupo de austríacos. 

Enquanto trocamos de lugar, nos perguntaram de onde éramos e respondemos: do Brasil. 

Um deles, chamado Karl, nos perguntou se éramos de Entre Rios. Quando confirmamos, surpresas, ele resumiu a história da imigração do lugar onde vivemos, e nos contou que também é descendente de suábios, como nós, e por isso reconheceu o dialeto alemão que falamos. 

Karl estava com seu amigo, Alfred, e foi o começo de uma amizade que dura até hoje.

Nesse dia, depois de 6hs de caminhada, e de uma subida que pede resistência e persistência, finalmente chegamos a Pontevedra

Eu estava com muita dor no joelho e, pelo esforço repetitivo de 3 dias, a situação estava começando a ficar bem feia. 

Além disso, meu tênis, que havia comprado especialmente para a caminhada, estava machucando muito o meu tornozelo.
Aí vem a outra dica: o melhor tênis para essa caminhada não é o mais caro, e sim aquele que está mais adaptado a você. 
Eu comprei o meu tênis com 1 ano de antecedência, da marca Salomon. Usei ele para caminhar e ia com ele para a academia, de forma que, quando iniciamos o Caminho de Santiago, ele já tinha sido bastante usado. 

Porém, apenas com o passar dos dias, sempre caminhando no mesmo ritmo, foi que percebi o problema. 

O nosso corpo tem a tendência de inchar durante a caminhada, mesmo que você não tenha problemas com retenção de líquidos. Os dedos das mãos incham, a ponto de ter que tirar anéis e alianças. O rosto incha, assim como as pernas, pés e tornozelos. 

O meu tênis tinha um cano um pouco mais alto, que encostava no meu tornozelo. Ótimo para a academia e para caminhadas curtas, mas, com o inchaço dos pés, o cano raspava no meu tornozelo, me machucando a ponto de não conseguir mais usá-lo depois do 3º dia. 

Nossa maior preocupação inicial eram as bolhas, que agora haviam sumido, e problemas com os pés e pernas que nem imaginamos começaram a aparecer. 

Eu tinha levado um tênis de pelica para usar nos primeiros dias de turismo, lá no Porto. Troquei o tênis Salomon pelo de pelica, que tinha uma sola muito fina. Sentia cada pedra do Caminho debaixo dos meus pés e, depois de 2 dias caminhando com eles, os troquei por uma sandália baratex de tiras, que usei até o final, com meias.
Faça o Caminho com aquilo que você tiver em casa. Um bom solado antiderrapante é o que basta. Quanto mais usado for o seu calçado, melhor.
com dor no joelho, de sandálias e meias

Ao chegarmos em Pontevedra, pernoitamos no Hostel Charino

Consideramos o melhor hostel do caminho. 

Ficamos em um quarto separado, apenas nós 3. 

O Julio e sua mãe, D. Glória, administram o local. O Julio é super educado e preocupado com os hóspedes, e a D. Gloria faz um café da manhã espetacular, com suco de laranja espremido na hora, ovos mexidos fresquinhos e uma torta deliciosa.

Passeamos e jantamos em Pontevedra, fomos ao mercado e à farmácia para renovar os suprimentos, e tivemos uma excelente noite de sono. 

A essa altura, já estávamos totalmente desconectadas de redes sociais, e do nosso cotidiano no Brasil, o que foi uma experiência bem interessante. 

O Caminho nos mostra que até isso é possível. No nosso dia a dia, vivemos sob estresse e sob pressão. Temos tantas obrigações, preocupações e tarefas diárias, e o Caminho nos dita outro ritmo. 

Não é o ritmo do relógio, e sim do coração.

Dia 9 - 4º dia no Caminho Português de Santiago

Caminhada de Pontevedra a Caldas de Reis – 23Km – 7 horas – Dificuldade Média

Esse foi um dia bastante exigente - atravessamos florestas nativas, de eucaliptos e pequenos riachos. 

Em alguns pontos, precisamos passar por trilhas com pedras, que exigiam uma atenção maior. De nós 3, eu era a que estava com mais dificuldades para seguir: dor no joelho, sandálias improvisadas, tomando remédios para dor a cada 4hs.
Após 4 dias de caminhada, um novo aprendizado: nada, nem ninguém, é capaz de te preparar para o Caminho, pois cada um tem o seu. E o Caminho, geralmente, é de superação.
Quando decidimos fazer o caminho, nos preparamos fisicamente

Começamos a frequentar a academia 3 vezes por semana. Intensificamos treino de pernas, costas e fazíamos caminhadas nos finais de semana, cada vez mais longas. Estávamos ficando fisicamente mais fortes e resistentes a cada dia, muito confiantes. Mas, no 4º dia, percebemos que andar 20Km todo santo dia traz um desgaste para o qual nenhuma academia consegue te preparar: além do desgaste físico, o desgaste é também mental.

Você começa a pensar "o que estou fazendo aqui, qual o sentido ou propósito disso"? Por qual razão estou me sujeitando a essa dor física?

E, nesse momento, o Caminho te provê com algo mágico e inexplicável. 

Já cansadas nos primeiros quilômetros do dia, começamos a desenvolver estratégias para lidar com os desafios da caminhada difícil desse dia. Começamos a nos separar um pouco, em alguns trechos. 

A minha prima começou a se distanciar um pouco de nós, e encontrou o seu próprio ritmo, um pouco mais rápido que o nosso, no qual o silêncio e a contemplação da natureza a motivaram a continuar firme.

A minha mãe rezava o terço durante os trechos mais difíceis, encontrando na fé e na concentração forças para seguir adiante, passo a passo. 

Eu comecei a escutar músicas: algumas leves, algumas agitadas, algumas com letras inspiradoras, outras inapropriadas. A música me trouxe o alívio necessário, me desviou da dor e me manteve no foco.

Mesmo separadas, algumas vezes nos encontrávamos pelo Caminho. A cada encontro, uma de nós estava com lágrimas nos olhos, e cada vez por algum motivo diferente: gratidão pela oportunidade, gratidão pela vida, gratidão pelas nossas famílias ou a saudade daqueles que já não estavam mais entre nós.

Quando a gente se distancia um do outro e olha para dentro de si, o Caminho nos dá oportunidades para refletir, para se conhecer melhor e para encontrar a paz interior. 
A gente reflete sobre as nossas motivações, apreciamos as pequenas coisas ao nosso redor, sentimos uma energia inexplicável de que alguém que amamos, mesmo estando em outro plano, nos acompanha. E, quando nos demos conta, chegamos ao destino.
Nesse dia, o destino era Caldas de Reis. 

Queríamos ter a experiência em um albergue rural, e escolhemos o Albergue Vintecatro, que fica uns 3Km antes de Caldas dos Reis, na minúscula Tivo

Havíamos planejado conhecer as termas de Caldas de Reis, mas, quando vimos o albergue, resolvemos ficar por lá e curtir o local. 

O albergue é simples, mas tem um jardim muito gostoso. Almoçamos por lá e descansamos debaixo das arvores frutíferas, tomando vinho.

jardim do Albergue Vintecatro

Passeamos também pelas únicas 4 ruas da localidade de Tivo e acabamos na Casa Carote Bar, um bar bem simples, ao lado da rodovia. 

Foi um daqueles momentos não planejados, mas de muito significado. 

Sentamos no balcão do bar e pedimos que nos servissem uma bebida típica qualquer. Nos ofereceram vinho de produção própria, servido em uma pequena tigela. Ficamos conversando durante muito tempo com a proprietária do local, que nos contou como era viver por lá, sobre os desafios de administrar um local tradicional, tentando concorrer com grandes cadeias de fast food. 

Foi um encontro muito especial, do qual sempre vamos nos lembrar.

A noite no albergue foi compartilhada com 2 mulheres tchecas. 

Não conseguimos nos comunicar com palavras, pois não encontramos nenhuma língua em comum, mas nos comunicamos por sinais, gestos e mímicas. 

Tivemos um descanso tranquilo. 
Ao final desse dia, percebemos que não há limites para o nosso corpo, quando a mente quer. Você sempre pode um pouco mais. Você pensa que é seu último passo, mas anda mais 3Km. Você está com dor e acha que não aguenta mais, mas o caminho te distrai com algo que faz sua dor desaparecer por um tempo. Você está morrendo de calor e o caminho te leva pelos mais belos bosques, com sombra em abundância. Você está imersa em seus problemas e o caminho te conecta com alguém que tem uma experiência que te faz perceber que todos temos desafios e que alguns são maiores que os seus. 
Nesse dia, intitulamos o nosso trio de As Fantásticas, pois era assim que estávamos nos sentindo. 

Fantásticas por termos superado esse e os últimos dias, que tanto já tinham exigido fisicamente de nós. 

Fantásticas por sabermos que, dali em diante, nada e nem ninguém seria capaz de nos impedir de fazer o que quiséssemos nas nossas vidas.

Dia 10 - 5º dia no Caminho Português de Santiago

Caminhada de Caldas de Reis a Padrón – 19Km – 6 horas – Dificuldade Média

Saímos cedo do albergue, como nos demais dias, e sabíamos que esse seria o nosso penúltimo dia no Caminho Português, antes de chegarmos a Santiago de Compostela. 

Tínhamos perdido o contato com todas as pessoas que encontramos pelo caminho: Bernd, Micha, Michael, Karl e Alfred. 

Começamos o dia desejando reencontrá-los novamente. 

Seguimos o nosso Caminho, contemplando a natureza. Aos poucos, as placas indicavam que faltavam cada vez menos quilômetros para chegar a Santiago. 

Nosso destino era Padrón, onde chegamos por volta das 15hs.

Padrón tem uma praça enorme, chamada Plaza Canton Igreja, que fica ao lado de um mercado de frutas e verduras. Entramos no mercado para comprar maçãs e, ao sairmos, nos deparamos com o Karl e com o Alfred na praça. 

Que alegria revê-los. 

Conversamos por um bom tempo e trocamos contatos nesse dia. Depois desse dia, não os vimos mais no Caminho. Ao chegarmos ao Brasil, Karl nos enviou um WhatsApp e tivemos oportunidade de reencontrar ele e o Alfred para um café em Innsbruck, 8 meses depois. Agora em outubro estarão vindo nos visitar no Brasil.

Fomos ao Albergue Corredoiras, que havíamos reservado, para descansar um pouco. 

No final do dia, procuramos a Igreja de Santiago Apóstolo de Padrón, para carimbar nossas credenciais, e nos deparamos com a Micha e o Bernd por lá. Ficamos muito felizes com o reencontro e acabamos em um café, para conversar.

Agora estava faltando apenas o Michael. E, para nossa surpresa, ele passou por nós, na procura de um local para comer, e acabou se juntando a nós no café. 

Parece que o universo havia atendido os nossos desejos, de reencontrar novamente as pessoas que haviam cruzado nossos caminhos.

Padron
reencontro com Micha e Bernd em Padrón

O que aprendemos nesse dia? 

Que o Caminho nos torna todos iguais e que você nunca estará sozinho. 

Somos de diversos lugares do mundo, temos raças, religiões e crenças diferentes. 

Ninguém sabe se você é rico ou pobre e ninguém se importa se você é velho ou jovem, se você é bonito ou feio. Ninguém liga para o que você está usando ou onde está hospedado. 

Sempre haverá alguém para te ajudar, para te acolher, para te encorajar, para compartilhar algo importante, para tomar um café ou um vinho.
O Caminho te iguala, e acho que é por isso que todos se sentem tão bem nele.

Dia 11 - 6º dia no Caminho Português de Santiago

Caminhada de Padrón a Santiago de Compostela – 25,2Km – 7 horas – Dificuldade Média

Levantamos pela manhã e poucos quilômetros nos separavam de Santiago de Compostela agora. 

Apesar de o Caminho ser fácil, a distância nesse dia era grande. 

A essa altura, a exaustão faz parecer que o destino não chega nunca. 

A paisagem é bela, mas todos parecem ter urgência em chegar. 

Na metade do caminho, avista-se as torres da Catedral de Santiago. Tão próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes.

Eu já tinha ouvido todas as músicas da minha playlist, a minha mãe já tinha rezado o terço 3 vezes, mas, mesmo assim, ainda estávamos longe de chegar. 

Ao entrar na área metropolitana de Santiago de Compostela, ainda leva-se um bom tempo até chegar na Praça do Obradoiro, que é o local onde todos se encontram, em frente à Catedral. 
A caminhada de contemplação no meio da natureza se transforma em uma caminhada frenética no meio da cidade, com movimento de carros, ônibus e semáforos, aos quais já não estamos mais acostumados.
Aos poucos, as ruas vão ficando mais estreitas, e escuta-se o som da gaita galesa recepcionando os peregrinos. 

Enfim chegamos!!!! 

Uma profunda emoção e um senso de realização, culminando na magnífica Catedral de Santiago. 

Nos abraçamos, choramos, pulamos de alegria. Um sentimento de alegria por termos chegado e de tristeza, por ter acabado. 

Tiramos milhares de fotos, curtimos a energia da praça. 
Pessoas chegando mancando, outras chorando de emoção, outras de alívio, algumas rindo de tanta alegria, grupos se encontrando e se abraçando. 
Que sensação maravilhosa fazer parte disso.

Bernd estava lá, esperando por nós. Ele já tinha vivido a experiência de chegar em Santiago de Compostela várias vezes, mas queria ver a nossa emoção na chegada. Nos esperou por quase 2hs e depois ainda nos ajudou a tirar o Certificado do Peregrino

Depois disso, tomamos um último café juntos e nos despedimos. Ele iria seguir o seu Caminho e nós, o nosso. Com Bernd ainda mantemos contato quase que mensalmente por WhatsApp, mas não nos vimos mais pessoalmente desde então.

Algumas de nós deixaram as suas pedras no Caminho. Eu, no entanto, decidi não libertar a minha. Encarei o ato de carregar uma pedra como uma extensão daquilo que vivi no Caminho. Aquela pedra estava carregada de boas energias, de bons sentimentos e de muita emoção. Ao chegar em casa, a presenteei para uma pessoa muito especial, que coleciona pedras de todas as partes do mundo, e que sei que irá guardá-la com carinho, para sempre.

Catedral de Santiago de Compostela
Catedral de Santiago de Compostela

Santiago de Compostela
Santiago de Compostela

Tínhamos tantos planos para Santiago nesse dia. 

Queríamos fazer um tour guiado noturno pela cidade, provar as típicas tapas e a queimada galega. 

Mas a verdade é que fizemos check-in no Hotel Pombal Rooms Santiago, deitamos um pouco para descansar e não conseguimos mais levantar. 

Estávamos muito exaustas, com febre pelo esforço físico intenso dos últimos dias. Os nossos corpos estavam implorando por descanso e acabamos ficando no hotel, pedimos apenas pizza e vinho do Porto pelo delivery. 

O nosso cansaço era tanto, que chegamos a fazer aquela brincadeira de 2 ou 1, para ver quem ia descer na recepção para pegar a pizza.

Hotel Pombal Rooms é muito bom. Quartos amplos e com vista do nosso quarto para a catedral de Santiago. Tinha até uma pequena varanda externa. Só jantamos e dormimos.

Dia 12

Acordamos super dispostas, agora sim para conhecer Santiago de Compostela

Visitamos a Catedral para abraçar a estátua do Apóstolo. 

A Catedral de Santiago é magnífica, o altar é realmente impressionante. 

Assistimos a missa do peregrino às 9:30hs e nos emocionamos com a solenidade. 

Havíamos planejado assistir à missa do Apóstolo no dia 21 de maio, que é um dos poucos dias em que o Botafumeiro funciona, mesmo sem que alguém pague pelo seu acionamento. Porém, ele estava em manutenção 😒 

Mesmo sem o Botafumeiro, contudo, a missa foi realmente linda. 

Depois da missa, andamos um pouco pelas ruelas de Santiago e nos presenteamos com um farto almoço, regado a um bom vinho.

Às 16hs, nosso roteiro continuava em direção à Vigo, com o Flixbus

Já era nosso caminho de volta ao Porto, para regressarmos ao Brasil, mas antes ainda tínhamos uma parada.

Para nossa surpresa, quando chegamos na rodoviária, o escocês Michael estava nos esperando. Ele também queria se despedir. 

Em alguma das nossas conversas, eu havia mencionado a ele que iríamos sair de Santiago de Compostela com o ônibus das 16hs, e ele se planejou para estar lá nesse horário. Foi um gesto muito nobre dele. 

Infelizmente, perdemos o contato com o Michael ao longo do tempo, assim como com a Micha.

Chegamos em Vigo às 17:25hs. 

Fizemos check-in no Hotel del Mar Vigo, bastante simples. 

Acredito que há melhores opções na cidade, mas estávamos procurando um hotel bem localizado, perto da orla e perto do cais que leva para as Ilhas Cíes, que seria o nosso destino no dia seguinte. 

Vigo tem uma orla bem grande, com muitas pessoas praticando esportes, muitos barcos ancorados e algumas praças bem legais para tomar um café.

Orla de Vigo
orla de Vigo

Cafés em Vigo
cafés em Vigo

Dia 13

Nosso barco para as Ilhas Cíes sairia às 10:45hs. 

Leva-se 45min para chegar até a ilha. 

Resolvemos acrescentar esse local à nossa lista de destinos porque as praias da ilha são consideradas algumas das melhores do mundo
As Ilhas Cíes são um arquipélago na Galiza, Espanha, integrado no Parque Nacional Marítimo-Terrestre das Ilhas Atlânticas da Galiza, que possui acesso controlado, para proteger o seu valor ecológico e a sua beleza natural. 
Para acessar a ilha, é necessário obter autorização da Xunta de Galícia. 

Apenas após a autorização concedida, pode-se comprar o bilhete do barco que leva até a ilha. 

O acesso é limitado apenas a 1800 pessoas por dia, entre maio e setembro de cada ano. 

Era uma oportunidade única para visitar a ilha. 

Além de apreciar as praias, é um local para fazer caminhadas e trilhas em meio à natureza. 

Já recuperadas do Caminho Português de Santiago, fizemos a trilha até o farol da ilha, que tem paisagens deslumbrantes. 

Almoçamos na ilha mesmo, que tem restaurante com uma comida bem básica (frango grelhado e batata frita). 

Impossível nadar na água, pois ela é gelada, o que aparentemente não incomodou os adolescentes que estavam visitando a ilha nesse dia, com a excursão da escola. 

Retornamos da ilha às 18hs, bem a tempo de pegar o próximo ônibus, com destino ao Aeroporto do Porto, onde pernoitamos, para voltar ao Brasil na manhã seguinte.

Praia da Roda – Ilhas Cies
Praia da Roda, Ilhas Cíes


Ilhas Cies
Ilhas Cíes

Ao retornar do Caminho de Santiago, além das memórias da jornada, perceber que temos tanta resistência física, nos torna mais resilientes frente aos obstáculos que enfrentamos no nosso dia a dia. 
Quando algo fica difícil, sabemos que precisamos respirar fundo e continuar, porque somos capazes de ir além. Fica a percepção de que somos capazes de superar muito mais do que imaginamos.
Podemos pensar que o nosso cotidiano vai mudar, que vamos trabalhar ou nos estressar menos. 

Isso pode até ser verdade para algumas pessoas. 

Porém, aos poucos, a rotina normal toma conta das nossas vidas novamente e tudo volta a ser como antes. Voltamos a nos ocupar com nossos trabalhos, com nossos familiares e com nossos problemas. 

Mas passamos a ter um apreço maior pela vida menos consumista, por coisas e pessoas mais simples. 

O peso das experiências e das conexões que fazemos é mais importante do que os bens materiais que conquistamos.

O Caminho é difícil? É sim. De várias maneiras. Mas é muito mais belo do que difícil. Também de várias maneiras. 

Quando a vontade bater e o Caminho me chamar de novo, com certeza irei novamente.

E você, já fez ou está planejando percorrer algum dos Caminhos de Santiago de Compostela? Conta pra gente! Deixe as suas dicas ou dúvidas nos comentários!

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