Antártica: relato de expedição em família
* Por Mariana Oliveira, ou @NanaJoay
Você já sonhou com uma determinada viagem? Em viver uma certa experiência?
Se você respondeu sim, fico feliz! Eu também faço parte dessas pessoas que têm uma lista enorme de coisas que sonham em viver, experimentar, contemplar!
Eu sigo a Claudia nas redes sociais desde que ela e o Peg fizeram o trekking até o EBC. Felizes coincidências que o algoritmo do Instagram nos proporciona.
Foi através daquela sequência de stories que eu comecei a perceber que pessoas “normais” – que não são alpinistas, exploradores, etc. – também podem se aventurar até o Campo Base do Everest.
Compartilhei aquele post com os meus – e, em outubro de 2025, lá estávamos nós – em família – trilhando o mesmo caminho.
Foi épico!
Em um outro domingo qualquer, vi no Instagram do Pequeno Viajante um post sobre a Antártica.
A Claudia estava compartilhando sobre o sonho de conhecer o continente.
Eu e minha família tivemos a experiência de visitá-lo em dezembro de 2025 e pensei: “quem sabe é a minha vez de retribuir e inspirá-los com essa viagem!”
Trocamos algumas mensagens e cá estou.
Então, senta que lá vem história!
Vou fazer um mix entre “parte prática”, com dicas de como escolher o melhor cruzeiro para esse tipo de expedição, o que esperar desse tipo de viagem etc, e uma parte “nas entrelinhas”, falando um pouco sobre as minhas impressões e o que senti durante essa aventura.
Esse é o relato da @NanaJoay sobre a expedição em família para a Antártica 👇
Antártica parte prática: onde fica, quando ir, o que é realmente
A Antártica é o continente mais ao sul do planeta e tem cerca de 14 milhões de Km² (ou seja, 1,6 vezes maior que o Brasil). É enorme!
Desde 1959, o continente é governado por um acordo internacional chamado Tratado da Antártica, que estabelece que a região deve ser usada apenas para fins pacíficos – destinados à pesquisa científica.
Atualmente, 18 países possuem bases científicas no território, inclusive o Brasil!
Desde 1984, com a Estação Antártica Comandante Ferraz, localizada na Ilha Rei George, e desde 2012 com a instalação de um módulo científico no interior, exatamente no centro do continente, chamado Criosfera 1 (o projeto desse módulo aparece na série “Pole to Pole”, apresentado pelo ator Will Smith – é super interessante!).
A temperatura mais fria registrada na Terra também foi por lá, marcando -89°C em julho de 1983.
Devido às condições climáticas da região, a maioria das expedições acontece apenas durante o verão antártico, entre novembro e março, quando as temperaturas na costa variam entre 2°C e 8°C.
Apesar do frio extremo, há vida (e muita) na região do litoral.
Vista a imensidão e as condições extremas, a maioria – para não dizer todos – os cruzeiros de turismo oferecem rotas apenas na Península Antártica, região mais ao norte do continente.
Deu para ter uma ideia de onde estávamos indo?
A escolha do cruzeiro para a Antártica
Dentre tantas empresas que propõem esse tipo de expedição, escolhemos a Swan Hellenic (SH), simplesmente porque ela correspondia a muitos dos critérios que estávamos buscando.
Por exemplo:
👉 Queríamos uma expedição que permitisse desembarcar no continente (algumas empresas propõem cruzeiros “contemplativos”, nos quais os passageiros não têm o direito de desembarcar na Antártica).
Na programação da SH, além de passeios em barcos zodiac (lanchas infláveis), eles também propõem passeios de caiaque e trekkings – nos quais os passageiros podem desembarcar em terra para contemplar ou participar de trilhas guiadas e passeios com raquete de neve.
👉 Também buscávamos um navio pequeno (queríamos manter a sensação de aventura, mas com segurança e conforto).
A SH opera com 3 navios muito similares, com capacidade para aproximadamente 320 passageiros (sendo 150 guests e 170 staff).
👉 Incluso no pacote está o acompanhamento de guias e cientistas, que proporcionam um algo a mais na expedição. Conto os detalhes na sequência, porém já adianto que essa equipe deu um show à parte.
👉 Roteiro: 10 dias:
D1 e D2: saída do porto de Ushuaia + Passagem de Drake
D3 a D8: navegação e atividades na Península Antártica
D9 e D10: volta ao porto de Ushuaia + Passagem de Drake
Nas entrelinhas: sobre a Antártica
Tudo começou com o sonho de outra pessoa: minha mãe.
Para comemorar uma data importante, ela decidiu realizar o sonho de conhecer a Antártica.
Como a maioria das pessoas que têm a intenção de visitar o continente, logo se deu conta de que a maneira mais simples de ter essa experiência seria embarcando em um cruzeiro.
Ela convidou uma amiga, depois outra...e depois outra. Mas ninguém teve vontade – ou coragem – de enfrentar a Passagem de Drake.
Até que ela fez o convite: “vocês querem ir comigo?”
E...10 meses depois, lá estávamos nós 4 – prontos para mais uma viagem em família!
Durante a expedição à Antártica
O Capitão anunciou que zarparíamos do porto de Ushuaia uma hora antes do previsto.
O objetivo era evitar que a tempestade que estava se formando nos pegasse com força na Passagem de Drake.
Se você não tem ideia do que esse lugar pode significar, te convido a dar uma olhada nesse link.
O Drake liga o continente sul-americano à Antártica, e é conhecido como um dos trechos mais difíceis do mundo.
As ondas podem ultrapassar 12m, o vento atinge 100Km/h com facilidade, e as correntes marítimas são poderosas.
Essa combinação pode fazer com que até passageiros a bordo de grandes navios tenham a impressão de estar dentro de um liquidificador – e foi assim que nos sentimos no trecho da volta.
A “vantagem” é que os navios de cruzeiro levam “apenas” 2 dias para atravessar esse trecho (veleiros geralmente levam 5 dias).
Os 2 primeiros dias de navegação passaram super rápido - talvez porque tudo era novidade!
Descobrimos na nossa cabine o conforto de um hotel 5 estrelas – tinha até uma lareira supertecnológica (sem fogo), dando aconchego e fazendo o barulhinho da lenha estalando enquanto apreciávamos a neve caindo sobre a nossa sacada.
Experimentamos os “presentes” oferecidos pela SH: um anorak 3 em 1 para aguentar as temperaturas negativas e uma mochila impermeável para levar nossas coisas durante os passeios de zodiac.
Os dias também eram preenchidos com as atividades propostas no navio: spa, sauna, biblioteca, academia e um open bar/open buffet disponíveis 24h por dia.
Sabe aquela comida de navio que parece bonita, mas não tem gosto de nada? Esquece!
Aqui as refeições são feitas com ingredientes frescos e são superelaboradas.
A carta de vinhos e o menu de bebidas e drinks (já inclusos no pacote) provavelmente não deixaram nenhum paladar exigente decepcionado.
O restaurante onde as refeições principais são servidas é gastronômico – a ponto de o jantar ser servido “à francesa” e harmonizado com a carta de vinhos.
Enfim, tudo é delicioso!
A equipe de cientistas e guias que nos acompanhou também não mediu esforços para deixar a travessia ainda mais interessante.
Várias palestras e apresentações sobre temas relacionados à Antártica (vida marinha, geologia, histórias sobre os primeiros aventureiros, geopolítica, etc) aconteciam no deck principal – uma área enorme onde os 150 guests se acomodavam em sofás, apreciando as informações que estavam sendo compartilhadas ou apenas jogando um dos vários jogos de tabuleiro à disposição.
O ambiente é cozy e descontraído.
Durante uma das palestras, foi compartilhado que saberíamos o momento em que estivéssemos chegando, pois, antes mesmo de vermos terra, perceberíamos uma névoa baixa e a presença de pássaros acompanhando o navio.
E foi assim que tivemos a impressão de atravessar uma espécie de portal – a paisagem começou a ter um ar místico e, aos poucos, o contorno da terra começou a se mostrar.
Diferente do que eu imaginava, a Antártica não é um continente plano.
Assim que nos aproximamos do continente, percebi a existência de montanhas altíssimas que faziam com que os icebergs à nossa frente parecessem pequenos – quando, na realidade, eram enormes também.
A partir desse momento, uma onda de euforia se instalou a bordo. Para onde olhávamos, existia algo único, de beleza quase indescritível.
Se antes já tínhamos viajado para ver UMA geleira, ali estávamos diante de várias – ao mesmo tempo – e contemplávamos a beleza dos picos das montanhas nevadas e pinguins passando não muito longe.
É quase muita informação para processar.
Numa determinada manhã, fiquei hipnotizada olhando as baleias (umas 10!) se alimentando a apenas alguns metros do navio.
Assim…graciosas…lindas…no habitat delas – como deve ser.
Chorei de emoção. E não fui a única.
Num outro dia, atracamos com os zodiacs em uma pequena ilha, onde uma colônia de penguins Gentoo havia se instalado ao lado de um naufrágio, para chocar seus ovos.
Ao contrário do que se passa na água, o movimento deles em terra é limitado.
Aquelas patinhas curtinhas, que proporcionam um andar engraçado, não facilitam caso eles fiquem presos em um buraco na neve.
Então, a recomendação era: nunca ande nas “penguins highways” (caminho que eles mesmos traçam para ir de um lado ao outro) e, se você fizer algum buraco com a pisada da bota, tenha certeza de cobri-lo antes de partir – para evitar que um pinguim fique preso ali.
Regras para desembarques na Antártica
Ainda sobre instruções e recomendações que recebemos da SH para respeitar as regras da IAATO (International Association of Antarctica):
👉 Antes de desembarcarmos na Antártica, a equipe de expedição verificou todas as roupas e outros itens que os passageiros iriam usar fora do navio. Com mini-aspiradores e escovinhas de mão, a equipe removia qualquer resquício de pólen, sementes etc, que poderiam expor aquele ecossistema a algo não desejado.
👉 Toda vez que voltávamos de expedições em terra, nossa bota passava por um processo de lavagem para evitar a transmissão de possíveis vírus de uma colônia de pinguins para outra – tipo gripe aviária.
👉 Éramos proibidos de tocar qualquer outra parte do corpo no solo. Nada de sentar, deitar ou apoiar a mão enquanto estivéssemos em terra. O mesmo era válido para objetos – nada de apoiar mochila ou qualquer outro objeto no chão.
Funciona? Não sei. Porém, fiz minha parte respeitando as regras que me foram impostas.
Curiosidades sobre o turismo na Antártica
O turismo na Antártica é conduzido principalmente por navios de cruzeiros e expedições privadas que seguem as diretrizes da IAATO.
Num acordo de cooperação com a ciência, alguns desses navios oferecem cabines para cientistas que precisam chegar/voltar a/de áreas remotas. Uma espécie de carona organizada.
Foi nesse contexto que demos carona a um cientista europeu que iria passar uns meses em uma base inglesa em Port Lockroy.
Boa parte do navio ficou feliz com o pit stop, pois é nessa base que se encontra o ponto de correio mais ao sul do planeta Terra.
Poucos se privaram de mandar um cartão postal ou de comprar um souvenir na única lojinha do continente.
Foi numa dessas paradas que também conhecemos outras bases, que serviram de refúgio para nomes conhecidos por nós, brasileiros.
Foi muito legal conhecer o refúgio onde Beto Pandiani e Amir Klink ancoraram anos antes.
O alerta da natureza na Antártica
Durante os dias em que navegamos na Península Antártica, uma das cientistas a bordo coletou amostras de água para verificar a presença do krill, um pequeno crustáceo marinho, parecido com um camarão minúsculo, que vive principalmente em águas frias, como no Oceano Antártico.
Apesar de medirem entre 1 e 6 cm, eles têm um papel gigantesco na cadeia alimentar marinha.
Eles servem de alimento para baleias, focas e pinguins e são essenciais para a sobrevivência desses animais.
Se não fosse o bastante, ele também tem papel fundamental no ciclo do carbono.
O problema é que o krill também é usado na indústria. Mais especificamente na produção de óleo, pois é rico em ômega 3, suplementos alimentares e até ração de peixes - sabe a cor laranja que tem o salmão de cativeiro que você compra? Então: provavelmente é graças ao krill.
Não sou uma pessoa habilitada para falar sobre o problema da pesca em larga escala, nem sobre como isso pode impactar a sustentabilidade da região – mas compartilho a reflexão e o alerta: é impossível estar frente a toda essa beleza e vida sem se questionar sobre nossas escolhas e o impacto delas nessa região.
De volta para o navio
Outra atividade proposta durante os dias que estivemos a bordo foi conhecer os bastidores do navio.
Começamos por uma visita à ponte de comando, onde o capitão nos recebeu e compartilhou curiosidades sobre aquele gigante de ferro e respondeu pacientemente a todas as perguntas sobre os mais diversos tópicos.
Aprendi que aquele modelo de navio, apesar de “pequeno”, tem o mesmo estabilizador usado em navios de grande porte. Isso faz com que as passagens pelo Drake sejam menos terríveis.
Esses estabilizadores contam com inteligência artificial para “prever” para que lado o barco vai ser jogado, minimizando o chacoalhão.
Enquanto o capitão falava, percebi que, ao lado da janela, havia uma estátua de Iemanjá – pelo visto, todo tipo de proteção nunca é demais.
Também achei interessante (e fiquei feliz) ao saber que eles não utilizam âncoras nas atracações na Antártica, a fim de evitar danos à vida marinha.
Tudo é gerenciado por motores, que fazem a compensação dos movimentos necessários para deixar o navio “parado”.
Ele também explicou que aquele era um navio ecológico e, dentre as modernidades empregadas para ganhar a certificação, o uso da água era diferente dos demais navios.
Ali, toda a água utilizada a bordo é filtrada e reciclada antes de ser despejada novamente.
Visitamos as casas de máquinas – onde o engenheiro responsável também fez a alegria dos curiosos.
No deck 2, onde tínhamos acesso à água para embarcar nos botes zodiacs, certo dia a atração foi outra. Ao som de uma música que mais parecia uma balada, os hóspedes faziam fila para o Polar Plunge! Traduzindo: mergulho na água congelante!
Animados pela música, ou pelo lindo dia de sol que estava, 90% dos passageiros aderiram à experiência.
Confesso que, quando chegou minha vez e senti a água congelante tocando minha pele, por um segundo achei que não teria forças para voltar do dito mergulho.
Mas, felizmente – e para a segurança de todos – um membro da equipe estava a postos para puxar a corda que me segurava pela cintura e garantiu que aquele segundo terminasse e eu pudesse – imitando os outros – tomar um shot de vodka para esquentar.
Já que estávamos molhados, não perdemos o embalo e nos jogamos na piscina que havia no deck 7.
Apesar de pequena, foi o suficiente para se tornar inesquecível: afinal, quem entra numa piscina ao ar livre com uma vista espetacular, onde orcas estão passando a alguns metros à sua frente?
Fiquei pensando como concluir esse relato e me vieram à memória as frases que escutei quando comentei que iria para a Antártica: “Ir tão longe para ver pinguins e icebergs?”, “Vão se arriscar na Passagem de Drake para ver coisas que vocês podem ver em outros lugares…”
E foi aí que entendi: viajar é realmente um privilégio — mas é principalmente a oportunidade de tirar as próprias conclusões.
Para mim, a Antártica foi muito mais do que uma expedição a uma região remota para ver icebergs, pinguins e baleias.
Foi um encontro profundo com a beleza que só a natureza consegue proporcionar.
E, quando voltei, descobri a vontade de defender e preservar um lugar que antes parecia distante.
Espero que um dia você também tenha essa oportunidade e compatilhe esse sentimento.
Até a próxima!
Nana Joay


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