16 de janeiro de 2018

Cuba com crianças, pela Dani Lacerda

* Post escrito pela Dani Lacerda, sobre sua viagem a Cuba com a família.

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Com a polarização política dos últimos anos, descobri que falar por aí que iríamos passar férias em Cuba atraía uns poucos olhares invejosos e muitos olhares "suspeitos". Olhares que diziam "hum... petista... entendi". O fato é que, embora eu tenha um viés político mais à esquerda (meu marido nem tanto), nunca fui petista, mas sempre tive muita curiosidade em conhecer Cuba. 

Acho que essa curiosidade nasceu em 2004, quando me sentei ao lado de um expatriado cubano em um vôo Miami-São Paulo. Meu novo amigo tinha 57 anos e estava indo para o Brasil conhecer uma "namorada virtual" (imagina isso! namorada virtual em 2004!). Conversamos bastante e aquele anti-castrista me convenceu que o país dele, do qual havia saído apenas alguns anos após a revolução, era um dos lugares mais lindos do mundo. 

Bom, mordida por esse “mosquitinho”, Cuba entrou na minha wishlist

Em 2006, grávida do meu primeiro filho, estive a dois passos de fechar um pacote para a ilha, mas confesso que amarelei...sabe como é grávida de primeira viagem, sempre com medo de algo dar errado...mas foi bom esperar 11 anos, pois nossa viagem desempacotada realizada em julho de 2017, com marido e dois filhos (10 e 6 anos) na bagagem, foi muito mais divertida do que teria sido naquele pacote. 

Outra coisa engraçada era contar que estávamos indo com as crianças para Cuba. Muitas perguntas do tipo "mas você vai levar as crianças?!?!?!" e muito olhares que diziam "sua doida!" 

Um colega do meu filho de 10 anos chegou a dizer que Cuba era perigosíssimo, que bastava “colocar os pés para fora do hotel para ter uma arma apontada para a cabeça”! Mal sabia ele (e possivelmente os pais dele) que Cuba é um dos lugares mais seguros do mundo para turistas. Comparado com o Brasil então, nem se fala!

Bom, mas deixa eu vou contar um pouquinho dos preparativos e da viagem em si. Dessa forma, quando alguém te mandar ir para Cuba, você já sabe o que responder: “Ótima ideia!!!”.

em Fusterlândia, mosaicos retratando a chegada de Fidel e Che a Cuba, iniciando a Revolução

1 Passagem na mão


Nosso primeiro passo foi conseguir passagens com preços razoáveis. Nove mil reais (~U$2800 com taxas) para quatro não era nenhuma maravilha, mas estava bom o bastante. Pegamos um vôo direto de BH para Panama City e de lá para Havana. 

Na volta, pegamos uma conexão de 20hs no Panamá que nos permitiu uma ótima noite de sono e um tour na manhã seguinte, com direito a Casco Viejo e Canal do Panamá.

lá do alto do prédio onde fica a Camara Obscura, vista da Plaza Vieja

2 Onde pesquisar sobre Cuba?


Internet, internet, internet. Tem tudo que você precisa e, se você lê em inglês e/ou espanhol, tem tudo e mais um pouco. Não comprei nenhum livro ou guia específico de Cuba. Li muito sobre as coisas boas e muito sobre as coisas nem tão boas. Saí daqui preparada para sofrer com o assédio dos jineteros (spoiler: não sofremos), comer mal (spoiler: parcialmente verdade) e não cair em nenhuma "armadilha" (spoiler: não caímos...acho que não). 

Um post em português que me ajudou bastante a planejar a viagem, inclusive me fez incluir remédios no roteiro, foi o da Mirtes do blog Juntos na Estrada

Memorial Jose Martí em Havana (clique perfeito do filhote de 10 anos)

3 Documentação


Em termos de documentação, você precisa de 3 coisas para entrar em Cuba: seguro saúde, certificado internacional de vacina contra Febre Amarela (chamarei de CIV daqui em diante) e cartão de turista (tarjeta turística em espanhol). 

- O primeiro nos custou cerca de R$ 500 para os 4. Descobrimos na volta que, aparentemente, poderíamos ter usado o seguro oferecido pelo nosso cartão de crédito. O fato é que ninguém nos pediu para ver esse tal seguro obrigatório. 

- O CIV é muito tranquilo de obter se você já está vacinado e guardou seu certificado nacional, como era nosso caso. Crianças não precisam ir até a Secretaria de Saúde da sua cidade, mas adultos tem que ir e podem levar os documentos dos filhos. A boa notícia é que, alguns dias antes de pegarmos o nosso CIV, ficou definido pela OMS que duas doses de vacina garantem imunidade vitalícia contra Febre Amarela. Assim sendo, nosso CIV-Febre Amarela vale FOREVER (tem que guardar junto ao passaporte, mas não pode ser dobrado nem grampeado). Diferente do seguro saúde, esse certificado foi verificado sim. Ainda em Belo Horizonte os próprios atendentes da Copa Airlines pediam a todos que iam para Havana para mostrarem os seus CIVs. Havia uma moça na nossa frente, indo para um congresso em Cuba, que “dançou” por causa disso. A viagem dela havia começado em Goiânia e era lá que ela tinha deixado o comprovante nacional da vacina. Ou seja: ela teria que voltar a Goiânia para obter um certificado internacional ou esperar que o certificado nacional chegasse a BH via sedex. Acredito que ela tenha perdido o congresso. A Copa argumentou que se ela embarcasse sem o CIV a própria companhia aérea poderia ser multada por não ter verificado a documentação. Como essas regras mudam, é importante verificar se estão ou não exigindo CIV de alguma vacina para o lugar onde você está indo (essa moça do exemplo anterior pecou porque não checou, já que Cuba havia começado a exigir o CIV-Febre Amarela apenas uns 3 ou 4 meses antes dessa viagem). 

- E, por fim, você necessita da tarjeta turística, ou seja, o visto cubano. Compramos os nossos quatro em Confins, diretamente da Copa. O pagamento é feito em reais (acho que custou R$ 64 por pessoa) e só pode ser pago em dinheiro. É bastante simples.

Um breve comentário sobre o vôo da Copa: meia boca, muito meia boca...comidinha ruim, funcionários nada felizes, sem carrinho para emprestar no aeroporto (o vôo saía 1 da manhã e nosso filho de 6 anos ficou dormindo nas cadeiras do aeroporto... creio que teria sido mais fácil se a Copa tivesse um carrinho para emprestar), monitores de TV coletivos. 

Enfim, vamos acabar voando de Copa novamente se o preço for convidativo, mas definitivamente já voei melhor do que isso. Os vôos entre a Cidade do Panamá e Havana foram melhores do que os vôos entre Belo Horizonte e a Cidade do Panamá. 

turistas chegando ao Parque Histórico Morro y Cabaña para o imperdível “canhoaço” das nove

4 Onde ficar em Cuba


Nós queríamos fazer uma viagem desempacotada e mista. Queríamos praia e hotel, mas também queríamos rodar, passar por cidades pequenas e nos hospedar em casas particulares. Como a viagem era um sonho mais meu, decidi que faria um pouco dos dois e todo mundo sairia feliz. Foi exatamente o que aconteceu (spoiler: meu marido, que saiu do Brasil meio receoso dessa experiência de dormir em casa de cubano, voltou de lá 13 dias mais tarde reconhecendo que tinha sido inesquecível e que, da próxima vez que formos a Cuba, podemos dispensar a mordomia dos hotéis).

Uma grande dúvida que tive antes da viagem: onde ficar em Havana? Custei a decidir entre Vedado e Miramar, mas acabamos optando por Miramar (confesso que vendo as fotos das casas no AirBnB, a que escolhemos em Miramar me ganhou), mas eu recomendo ficar em Havana Vieja mesmo, perto da Plaza Vieja, nosso lugar favorito em Havana. 

Foi ótimo ficar em Miramar, um bairro bom, “fresco” (era verão então nada era realmente fresco), arborizado e quase totalmente residencial, a não ser pelas embaixadas de vários países e alguns hotéis. Estávamos em uma casa muito agradável, com um pé de manga carregado no quintal (os meninos ficaram enlouquecidos com a delícia das mangas) e anfitriões muito simpáticos, mas sim, Miramar é longe de tudo. O que tem por lá? Eu diria que nada, além do Acuario Nacional, uma atração de gosto duvidoso (veja mais sobre isso adiante).

Foi assim que fizemos (nessa sequência): 

Havana, 3 noites, casa particular; 
Varadero, 3 noites, hotel; 
Remedios, 1 noite, casa particular; 
Cayo Ensenachos, 3 noites, hotel; 
Trinidad, 2 noites, casa particular; e
Playa Giron, 1 noite, casa particular. 


nosso quarto na casa de Trinidad (esqueci de tirar foto no primeiro dia, com as colchas vermelhas sobre a cama)

Todas as casas particulares eu fechei no AirBnB, apenas por já estar familiarizada com o site e pelo fato dos preços serem similares aos dos outros sites. Os hotéis eu fechei no Decolar.com e pagamos em reais, em 10x no cartão (embora os dois hotéis fossem da rede Iberostar, o de Cayo foi infinitamente superior e apenas 10% mais caro, com o bônus de uma ótima gerente brasileira). 

Se você está se perguntando se é seguro sair para passear e deixar seus passaportes e algum dinheiro na casa onde irá se hospedar, eu me fiz essa mesma pergunta. Pesquisei bastante e conclui que era seguro. Então deixava tudo guardadinho em alguma mala e saia somente com algum dinheiro no bolso (pense bem nisso, pois terá que trabalhar sempre com dinheiro, pois não terá oportunidade de usar seu cartão de crédito internacional). Todas as casas que estão no AirBnB tem referências de antigos hóspedes e, sei lá, depois que a gente chega, você simplesmente se sente tranquilo. Em outras palavras: não me senti insegura nem por um momento e isso é uma experiência fantástica para nós, brasileiros, que nos sentimos tão inseguros e desconfiados o tempo todo. 

Quer dizer que não existem roubos em Cuba? Sim, existem, claro, especialmente do tipo “pickpocketing” (aconteceu numa balada, ou melhor, numa “salsa”, com dois irmãos que ficaram hóspedes uma semana antes na mesma casa em que ficamos em Havana). Então a dica é: relaxe, mais do que relaxaria no Brasil, mas não exagere! Fique atento as suas coisas como ficaria em qualquer lugar do mundo.

Outra observação sobre as casas particulares: assim que você chega eles pedem seus passaportes pois precisam enviar os dados dos hóspedes para o governo. Acho que devem pagar multa se esquecerem de fazer isso, pois todos pedem isso muito rapidamente assim que os hóspedes chegam, exatamente como eu havia lido na internet. Logo em seguida você tem que assinar um caderno e eles te devolvem os passaportes. É tudo bem tranquilo.

Capitólio cubano em reforma, visto em meio a prédios não restaurados

5 Como se deslocar em Cuba


Essa foi a minha principal dúvida! 

Tínhamos três opções: 

a) a mais barata que era ônibus Viazul, 

b) a mais comum para quem quer rodar 1500km com a família, que era alugar carro (me custaria em torno de U$500-600 sem contar combustível) e 

c) a que fizemos, que foi arrumar motoristas de um ponto para outro, incluindo aí táxis particulares amarelos (placa P, como aprendi), táxis amarelos do governo, e táxis particulares comuns. 

O custo total foi 570CUC (cerca de U$ 570), combustível incluído. Acredito que tenhamos feito a melhor escolha pois não tivemos que nos preocupar em abastecer, nem com o fato de que não conhecíamos as estradas. De bônus tínhamos um motorista cubano para ir batendo papo e trocando ideia pelo caminho. Dava para ter gastado um pouco menos nos deslocando em carros "clasicos" (aqueles das décadas de 50 e 60 ou ainda mais antigos), mas, nesse caso, seriam carros sem ar condicionado e sem cinto de segurança e fazíamos questão desses dois itens. Primeiro porque fomos no verão cubano, e pegamos temperaturas de mais de 35oC com frequência. Segundo porque acidentes são raros, mas acontecem. Terceiro porque pensamos que se um "clasico" quebrasse conosco na estrada, seria um inferno ficar no sol, com duas crianças, esperando algum tipo de socorro que sabe-se lá de onde viria! 

Porém, como dois de nossos três motoristas tinham o "pezinho meio quente", talvez alugar um carro não teria sido uma ideia tão ruim. 


ônibus que nos deu "carona", molhados, até Punta Perdiz - aí estão as carinhas felizes com a bagunça

6 Quanto e que tipo de dinheiro levar para uma família de 4 pessoas


Em Cuba dá para gastar muito e dá para gastar menos. Eu fiz uma estimativa de levar E$ 1500 (para 2 semanas), meu marido queria levar E$ 2000, batemos o martelo em E$ 1750 e, ponto para mim, voltamos com E$ 250 no bolso. Levar Euro pode ser um pouco melhor do que levar dólar, pois o dólar é sobretaxado em 10%, mas como nos custa menos que o euro, acho que no fim não faz tanta diferença. 

Esse dinheiro foi usado em alimentação (restaurantes e cafés da manhã e jantares nas casas particulares), transporte, pequenas lembrancinhas e entradas de museus. 

Dava para gastar menos como? Bebendo menos cerveja (Cristal e Bucanero são as comuns nas zonas turísticas), trocando parte dos CUCs (moeda turística, 1 CUC vale cerca de 1 dólar) por CUPs (pesos cubanos, usados pelos cubanos mesmo, 1 CUC = 25 CUPs), buscando lugares para gastar em CUPs e viajando de ônibus. Tudo depende de quem você é e que tipo de viagem quer fazer. 

Para trocar seus euros por CUCs assim que chegar, o melhor lugar é no aeroporto mesmo. Tinha visto a dica de subir para a área de “embarque” no 2º piso e trocar na “cadeca” (casas de câmbio) de lá com fila bem menor, mas ao tentar fazer isso descobri que a “cadeca” do embarque, de fato sem fila, só troca CUCs e pesos cubanos por euros ou dólares (havia um casal sueco com a mesma “dica furada” que eu tinha). Então não tem jeito: conforme-se e enfrente os 40min de fila das duas “cadecas” do desembarque. Outra opção: troque em alguma “cadeca” na cidade, pois todas elas pagarão o mesmo pelos seus euros (ou dólares) já que o valor é definido diariamente pelo governo. Usamos outras três “cadecas” fora do aeroporto: no bairro Miramar, em Havana, em Trinidad e em Playa Girón. 

Outra dica que peguei antes de ir e achei ótima: leve notas grandes de euro (notas de E$ 500), assim facilita a primeira parte da troca (já que o funcionário da “cadeca” não tem que ficar contando os seus euros), sua carteira fica “magrinha” e você vai trocando dinheiro aos poucos ao longo do caminho. 

filhote de 10 anos tentando entender a linda e nonsense escultura de bronze na Plaza Vieja (uma mulher nua, montada em um galo, segurando um garfo gigante...busquei por aí e não achei o significado da obra do artista Roberto Fabelo)

7 Onde comer? É caro?


A cada vez que nos sentávamos para comer em algum restaurante (ou “paladar”) nossa conta saía por cerca de 40CUC (algo como R$ 140), incluindo bebidas e gorjetas. Comparado com os custos de comer e beber em restaurantes aqui em Belo Horizonte, sinceramente, não achei caro. 

Como disse acima, a comida deixa mesmo a desejar. Algumas tem cara ótima, outras nem tanto, a maioria é meio sem graça. Para os carnívoros, a carne de porco predomina na culinária local. Eles também consomem bastante frango e nos disseram que preferem o frango brasileiro do que o outro que podem comprar (da Coréia, se não me engano). Pescado também se encontra em restaurantes e algumas casas, mas os cubanos mesmo não consomem, pois custa caro para eles (imagino que os que vivem no litoral tenham condições de comer pescado com maior frequência, mas em Playa Giron nossa anfitriã nos disse que não comem nunca). 

Se você ouviu dizer que todas as vacas do país pertencem ao governo cubano, você ouviu certo. 

Nossas melhores refeições foram, sem dúvida, nas casas em que nos hospedamos em Remedios e em Playa Girón. Comidinha bem caseira, temperadinha e gostosa. Tinha lido a dica na internet e concordo com ela: vale a pena experimentar a comida do seu anfitrião, se for ficar em casa. Na casa de Playa Girón tomamos café da manhã (somente um), tomamos Mojito (e tivemos aula de como fazer Mojito) e jantamos peixe, camarão e lagosta: custo total de CUC42! Ah! Ainda experimentamos o “pastel de cumpleanos” para celebrar os 11 anos do filho de nossa anfitriã! 

Eu tinha anotado muitas dicas da internet sobre "onde comer", mas nem vou passá-las adiante pois não sentimos tanta firmeza. Mas vou deixar uma dica de onde NÃO comer: Santo Ángel na Plaza Vieja. Foi, de longe, nossa pior experiência gastronômica em Cuba. Comida péssima, atendimento pior ainda, preço salgado. Saímos de lá bastante irritados e com fome e fomos buscar algo do outro lado da praça, no La Vitrola, e a experiência foi muuuuito melhor. 

Não fomos aos famosos Doña Eutemia e Bodeguita del Medio, que ficam em Havana Vieja. 

Experimentamos também dois restaurantes bem próximos de nossa casa em Havana: o La Fontana (local bastante agradável, a comida não era ruim, mas também não tem nada de especial) e o La Carboncita (pizza grande e saborosa, mas não experimentamos as massas). 

Em Trinidad, estávamos hospedamos em cima do Restaurante Sol y Son e comemos lá na primeira noite (comida razoável, mas achei cara pelo que era, valores acima do que estávamos pagando nos outros lugares). Na segunda noite em Trinidad comemos na Taberna La Botija e fui bastante animada pois tinha lido que era a “melhor comida de Cuba”. Minha impressão: lugar ótimo, agradável, boa música, porém com fila enorme (esperamos por 30 minutos) e comida sem graça, embora com a cara bem apetitosa e apresentação diferente. 

Enfim, para os que estão em busca de uma viagem gastronômica eu diria que Cuba não é a melhor opção mesmo. 

8 A praias cubanas são mesmo lindas?

Sim, são. Conhecemos primeiro Varadero (ficamos no Iberostar Playa Alameda, bastante antigo, comida apenas razoável, deixa a desejar...) e, no primeiro dia, o mar não estava tão “azul caribe”, pois o tempo estava nublado. Nos dois dias seguintes pegamos o mar bem mais lindo e os vários tons de azul apareceram. O hotel não tem estrutura de recreação como os resorts brasileiros (eu não gosto, mas minhas crianças curtem), mas tem aquela comida farta e de qualidade duvidosa e uma piscina enorme e quentinha que as crianças amam. Nosso quarto era apenas bom e, o que mais me irritou, foi a falta de assento no nosso vaso sanitário, pois, ao longo de 48hs, tive que ligar umas 8 (!) vezes para o atendimento ao cliente até conseguir que fosse instalado. 

Nossa segunda praia foi Cayo Ensenachos (ficamos no Iberostar Ensenachos, bem melhor que o anterior). Você chega até lá passando por uma estrada pelo mar, como as que ligam as Keys da Florida. É uma experiência bem bacana. A praia era sem defeitos, cor maravilhosa, tranquila, lugar para relaxar e esquecer da vida. Tanto os quartos, quanto as atividades, quanto a comida, foi tudo muito melhor que no Iberostar anterior. A gerente brasileira, Patricia, estava trabalhando lá há 3 meses e foi muito simpática. Falamos como os brasileiros ainda não descobriram Cuba, e como a diária de um hotel como esse era mais barata do que a de um Iberostar na Bahia (preços comparados em dólar). Ficamos com muita vontade de voltar em Cuba e conhecer Cayo Guillermo e Cayo Largo que dizem ser ainda mais lindas que Ensenachos. 

Nossa terceira praia (sim, gostamos muito de praia, somos mineiros, carentes de praia...) foi na parte sul da ilha: Playa Ancón, próxima a Trinidad. De cara, o que mais chama a atenção é que aqui, diferente das praias do norte, há cubanos curtindo a praia (nos disseram que na parte inicial de Varadero, alguns cubanos conseguem alugar casas e passear, mas adentrando a península, os hotéis e seus turistas dominam a praia). Isso nos deu bastante alegria, pois acho meio triste estar numa praia maravilhosa como Cayo Ensenachos e ter consciência que não há como os cubanos usufruírem daquela maravilha. Em Playa Ancón não há estrutura turística e, verdade seja dita, a praia estava bem sujinha. O mar tem a mesma temperatura agradável, mas é de um azul mais escuro e tem muitas pedras. É lindo, mas uma beleza comparável a de praias brasileiras. 

Nossa quarta e última “praia” foi Punta Perdiz, em Playa Girón. Coloquei praia entre aspas pois não era exatamente uma praia: era uma região onde dá para nadar, pois há uma trégua daquela beirada de pedras. Achei o mar aqui lindíssimo, de um azul mais escuro, e gostei da sensação de estar “nadando na história”, afinal, estava em plena Baía dos Porcos, que foi palco de uma grande briga entre Cuba e EUA em 1961, que terminou com a frustração americana (uma, de várias) por não ter conseguido derrubar Fidel Castro. 

Em resumo, não acho que vale a pena sair do Brasil só para conhecer Playa Ancón ou Varadero, já que temos praias tão ou mais bonitas, mas voltaria a Cuba para curtir Ensenachos e conhecer outros Cayos e outras partes de Playa Girón.

Varadero, seus turistas estrangeiros e alguns ambulantes

9 Celular pega? Internet pega?


Antes de sair do Brasil, meu marido ativou o roaming da Vivo por R$ 30 por dia, incluindo minutos de ligação (não lembro mais, mas creio que eram 200 minutos) e internet ilimitada. Se não usar, não paga nada. Se começar a usar, vale para aquele dia. Funcionou perfeitamente por todos os lugares onde estivemos. Sem queixas. 

Não compramos e não testamos os cartões para acesso a internet. É fácil identificar os pontos de acesso pela quantidade de pessoas paradas olhando em seus celulares. Os cubanos acessam regularmente, mas não é barato e nem a conexão é boa. Ligações de/para celular são caras também, mas as ligações de telefone fixo local são muito baratas. 

No dia que chegamos em Havana nós não conseguimos encontrar ninguém com a plaquinha com nosso nome. Foi um sufoco pois, cansados da viagem, morrendo de calor (estava frio quando saímos do Brasil e frio no avião, então nossas roupas não estavam muito apropriadas aos quase 40oC de Havana) e, após quase uma hora de fila para trocar nossos euros por CUCs, ainda não tínhamos forma de ir para casa. 

Ainda na fila da "cadeca" eu pedi informação sobre como poderia ligar (obs: nosso celular funcionou perfeitamente, como contei lá atrás, mas até esse momento eu ainda não estava botando fé nisso) para nosso anfitrião para tentar localizar nosso transporte e, um cubano, amigo de outras pessoas na fila da “cadeca”, me disse que eu poderia usar seu celular se ligasse para Jose a cobrar (como disse, ligações de/para celular são muito caras para os cubanos). Assim fiz: liguei a cobrar, Jose atendeu e, por fim, conseguimos nos encontrar. 

O detalhe é que a legislação favorece os taxistas autorizados do aeroporto, então, para um motorista particular como Roberto ir nos buscar, eles têm que fazer uma certa “acrobacia” (caso você não saiba, não é muito diferente nos aeroportos brasileiros, onde há os que “podem” e os que “não podem” pegar passageiros, mas lá, como aqui, tudo se resolve com “jeitinho”).

família em Cayo Ensenachos

10 O que visitar


Na internet você irá achar toneladas de sugestões mais completas do que as minhas, mas vou contar um pouco do que fizemos e do que mais gostamos ou não.

cartão postal cubano, visto lá do alto do Memorial Jose Martí

Dia 1


Chegamos em casa por volta de 14hs, mortos de cansaço e calor. Demos uma volta no bairro de Miramar, tentamos ver se havia algum lugar para nadar por perto. Passamos pelo Hotel Copacabana, onde se podia pagar para usar a piscina, mas achamos caro. Acabamos indo comer no La Fontana, que estava totalmente vazio àquela hora (umas 16hs) e onde pudemos refrescar os pés no pequeno “córrego” do lugar. 

screenshot do nosso roteiro da tela do Mapa.me, um app sensacional que funciona totalmente offline se você baixar antes os mapas do seu roteiro - ideal para não consumir internet nas viagens, ideal para Cuba

Dia 2


Após um café da manhã nota 10 (ovos mexidos, queijo, pão, geleia, manga fresca, suco natural e café estilo brasileiro), pegamos o ônibus turístico “double decker” (valeu super a pena, especialmente porque não cobraram do nosso filho de 10 anos que, em tese, deveria pagar) desde Miramar, descendo primeiro na Plaza de La Revolución e Memorial Jose Martí (sim, vale a pena subir e ver a vista lá de cima). 

Muitos carros “clássicos” lindos e renovados ficam parados nessa região e você terá muitas oportunidades para tirar as fotos mais tradicionais de Havana. Ficamos por ali cerca de 90 minutos e então seguimos no “double-decker” para Vedado (uma vez que você tenha pago por uma linha desse ônibus, você pode subir e descer nessa mesma linha o dia todo), para experimentar o famoso sorvete da Copellia. Confesso que não me encantei nem por Vedado e nem pelo famoso sorvete. 

Passamos por uma mini-feira de artesanato, onde vimos trabalhos em pintura, madeira e couro bastante similares ao que vemos nas feiras do Brasil (o mesmo aconteceu com “feirinhas” que vimos em Playa Girón e Trinidad). Me recomendaram muitas vezes ficar hospedada em Vedado, mas não me arrependi. De Vedado subimos novamente no ônibus e fomos até a região do Capitolio. 

Passamos pelo Malecón de ônibus (confesso que o calor e a falta total de sombra não nos permitiu caminhar pelo Malecón nenhum dia! uma pena, pois é uma dica frequente na internet). 

Caminhamos pelo Parque Central onde tiramos muitas fotos de prédios restaurados e outros caindo aos pedaços. Dali fomos para o Museo de La Revolución, onde ficamos cerca de 90 minutos conhecendo mais da história de Cuba. Os meninos curtiram muito, especialmente a parte externa do museu, com seus aviões, tanques e o iate que levou Fidel, Che e outros 80 combatentes do México a Cuba em 1956. 

Almoçamos no La Farmacia (ótima Pina Colada, comida mediana) e fomos até a Plaza de la Catedral debaixo de chuva. É uma zona linda! Voltamos para Miramar no último ônibus e comemos na casa de massas La Carboncita, em Miramar. 

 "double decker" de Havana (com o calor, preferimos andar boa parte das vezes do lado de dentro mesmo)

Dia 3


Outro café da manhã nota 10 e lá fomos caminhando de casa até o Acuario Nacional de Cuba. O Acuario não é bonito nem bem cuidado, mas parece que faz um bom trabalho de pesquisa, conservação e educação ambiental e, afinal, as crianças curtem. Um detalhe importante: achei uma grata surpresa ver tanto cubanos (e cubaninhos) usufruindo desse lazer em sua cidade (para eles o ingresso é 10 pesos cubanos e para nós, 10 CUCs, ou seja, se 1 CUC = 25 pesos eles pagam cerca 0,40CUC ou menos de U$0,40). 

De lá pedimos que Roberto (o motorista indicado pelo pessoal da casa de Havana) nos levasse para conhecer Fusterlandia. Trata-se de um bairro todo convertido em obra de arte, com tudo revestido em mosaicos de azulejos, obra do artista plástico Jose Fuster, também chamado de Gaudí caribenho (Fuster é o artista principal e idealizador de tudo, mas parece que vários moradores da região foram seguindo o estilo e fazendo o mesmo em suas casas). 

Na volta passamos no carro de Roberto ao longo de boa parte da 5ª Avenida, onde ficam as embaixadas. De lá fomos até o Callejón de Hammel, uma rua que exibe arte afro-cubana. Confesso que esperava mais do que vimos (parece que há shows e outros eventos musicais, mas nesse dia não tinha nada). 

Na volta para o carro, o “clássico” verde-abacate de Roberto nos passou um susto! O carro morreu, não queria pegar e só voltou a funcionar depois de uns 30 minutos, tempo que esperamos pacientemente ao lado de um Roberto muito sem graça que tentava resolver de todas as formas. 

Finalmente saltamos em Havana Vieja, onde exploramos a região da Plaza Vieja, que foi nossa zona favorita em Havana (e onde ficaremos hospedados quando voltarmos). Os meninos tiraram muitas fotos, comemos no péssimo Santo Ángel e depois no muito melhor La Vitrola. 

Perdemos o horário de visitar o Planetarium e a Camera Obscura, que encerram as atividades as 17hs (felizmente conseguimos voltar na Camera Obscura no último dia). Roberto nos buscou por volta de 19hs para nos levar ao Parque Histórico Morro y Cabaña para o imperdível “canhoaço” das nove (além do “canhoaço” há uma linda vista de Havana do outro lado da baía). Estávamos cansados, mas foi um dia delicioso. Foi nesse dia que Cuba ganhou de vez o coração do meu marido. 

assim é aquilo que não foi restaurado em Havana

Dias 4 a 7


Último café da manhã nota 10 e seguimos para Varadero. Demos uma rápida parada na praia de Santa Maria para ver o mar de Cuba. É uma praia larga, com ampla faixa de areia, parecida com muitas que temos aqui no Brasil. Foi o nosso primeiro trajeto longo com motorista e fomos conversando por quase todo o tempo (esse motorista peguei na rua mesmo, sem referência, pois observamos o carro, que nos pareceu em bom estado, e o motorista, que nos pareceu simpático). Ele nos contou muito da sua história, sobre preços astronômicos dos carros em Cuba, sobre a dificuldade em conseguir peças de reposição para os automóveis (tem cubano que fica indo e vindo do Panamá para trazer essas peças), sobre quanto do que ganha ele tem que repassar ao governo, quanto fica com quem dirige o carro e quanto fica com o dono do carro (podem ou não ser a mesma pessoa). De carro alugado teríamos perdido essa aula, certo?

Não há muito o que dizer sobre a estadia em Varadero além do que já comentei no item sobre as praias. Uma coisa que curtimos foi poder alugar “pedalinho” (é um barco maior do que um pedalinho, na verdade) ou fazer um breve passeio de barco a vela (nesse caso, com um “marinheiro” do hotel), sem tem que pagar a mais por isso. 

Dias 7 e 8


Saímos do hotel em Varadero e seguimos para Remedios com um taxista vizinho de Lourdes, nossa anfitriã de Remedios (esse mesmo motorista, Ernesto, faria ainda vários outros trechos conosco). 

No caminho passamos por dois pontos turísticos em Santa Clara: o mausoléu de Che Guevara e o ponto do trem descarrilhado pela revolução onde ocorreu a batalha que levou a grande vitória. Che é um deus nessa região e a história está bem preservada. Haviam me aconselhado a ficar em Santa Clara, uma cidade maior, ao invés de Remédios, mas confesso que queria conhecer um “lugarejo” e Remedios foi uma ótima pedida. 

Lá está uma das igrejas mais antigas e bem preservadas de Cuba, com altar revestido de ouro. Cubanos e turistas se locomovem bastante nessa região usando os serviços das bicicletas convertidas em “carrocinhas” onde um motorista leva duas pessoas (confesso que não sei o nome disso) e, uma das que escolhemos, tinha uma bandeira do Brasil. 

Os cubanos, com poucas exceções, adoram as novelas brasileiras e ficam comentando sobre elas o tempo todo (infelizmente eu não tinha muito o que falar, pois já perdi o gosto por nossas novelas há vários anos). É comum darem aos filhos (e aos cachorros) nomes que tiraram de algum personagem de novela brasileira. 

Nosso motorista da “bicicleta” gostava do Brasil pelas novelas e pelo futebol e, ao final do passeio, meu marido o presenteou com seu próprio chinelo Havaianas, aquele tradicional preto com a bandeirinha do Brasil. Ele ficou super feliz e morreu de rir em ver meu marido voltando descalço para casa! Jantamos na casa de Lourdes e as crianças amaram especialmente os chips de banana frita (“platanos”) feitos pelo filho da Lourdes. 

Dias 8 a 11


Após um delicioso café da manhã (de novo, com ovos, frutas frescas, suco, um pouquinho de queijo, pão, manteiga e café), Ernesto nos levou até Cayo Ensenachos

Também não tenho muito mais o que dizer sobre Cayo Ensenachos além do fato de ter sido totalmente delicioso. O hotel lá, além das piscinas, tinha um mini-parque aquático que era sucesso total entre a garotada. Vimos muitos canadenses, espanhóis e argentinos, mas principalmente canadenses (é muito bom e barato para eles passarem uma semana em Cuba...com vôo direto de Toronto para várias cidades cubanas, uma família canadense de 4 pessoas fecha um pacote completo por cerca de $ 1500 dólares canadenses, assim nos explicaram). 

O hotel tinha quatro restaurantes a “la carte” que funcionam por reserva, sendo que o melhor deles, para nós, foi o japonês. No restaurante buffet havia um “chef-cantor” na parte de massas que atraia muitas palmas e gorjetas! 

Apesar do minúsculo e pouco frequentado kids-clube, meu filho de 6 anos adorou e, uma noite, chegou a me pedir para ir jantar sozinho com a recreadora. Detalhe: só os dois, se comunicando sabe-se lá como, em uma mistura de português, inglês e espanhol. Achamos o custo benefício desse hotel fantástico e voltaremos se tivermos oportunidade.


mini parque aquático do  hotel em Cayo Ensenachos

Dias 11 a 13


De Cayo Ensenachos seguimos novamente com Ernesto para Trinidad. Nossa casa aqui se parecia mais com um Bed & Breakfast americano. A família mora na casa, aluga dois quartos na parte de cima e tem um restaurante na parte de baixo (Sol y Son). Percebe-se que eles têm um padrão de vida mais alto do que observamos nas outras famílias. 

Trinidad é uma cidade pequena e histórica, com muitas opções de restaurantes e bastante turística. Tem um roteiro estilo montanha/mata/cavalo que não fizemos. Preferimos ir para Playa Ancón, como contei lá atrás. 

Saímos de Playa Ancón e fomos comer em um restaurante em Casilda, um bairro de pescadores (tivemos ajuda de um motorista de Trinidad, do qual falarei nos “causos” adiante). O lugar chega a assustar por fora (é realmente bem feinho), mas é bastante arrumadinho por dentro e tinha vários quartos bacaninhas para alugar ao fundo. A comida, como sempre, razoável. A noite comemos no La Taberna, que já comentei lá atrás.

a maravilha de Cayo Ensenachos

Dias 13 a 14


O café da manhã em Trinidad também foi surpreendente, tanto pela comida (teve até panqueca!), quanto pela louça antiga e pelo capricho na decoração da mesa. Partimos de Trinidad para Playa Girón com um motorista indicado pelo nosso anfitrião. Esse foi o motorista que menos curtimos, tanto pelo “pé quente” (cheguei a pedir para que fosse mais devagar, mas não adiantou muito), quanto pela falta de simpatia. Só o que consegui saber dele é que era criador de porcos até alguns anos atrás, porém continua vivendo no campo e criando porcos somente para subsistência. Ele roda quase 800km por dia entre Havana, Trinidad e Cienfuegos, onde vive. Chegamos a Playa Girón por volta de 11hs. 

Antes de sair do Brasil, eu já estava “trocando figurinha” com Ivet (via mensagem de AirBnB), nossa anfitriã em Playa Girón. O filho dela, Andy, faria 11 anos no dia que estaríamos lá e, como tanto ele quanto o meu filho gostam de pescaria, ela ficou de pensar em algum lugar onde todos pudéssemos ir pescar. 

Pois bem...pense num “programa de índio” inesquecível! Quando chegamos de Trinidad, Felix, marido de Ivet, estava nos esperando para ir pescar de...charrete! Além de nós, Ivet (que chegou mais tarde), Felix e Andy, ainda haviam mais quatro crianças (primos) para nos acompanhar na empreitada! Só que já eram 11 da manhã e nos tocamos que teríamos que levar algo para comer, pois em breve as crianças (e os adultos) estariam com fome. Fomos comprar pizzas (umas pizzas redondas, massudas, nos foram entregues dobradas pela metade, formando uma espécie de “calzone” improvisado...acho que eram bem cubanas pois foram compradas em um local super simples, pagas em CUPs pelo próprio Felix que, com custo, aceitou que pagássemos também) e refrigerantes, mas até que tudo ficou pronto já era 1 da tarde! 

Primeiro nos levaram a um lugar onde, nos disseram, eles vão pescar as vezes. Porém lá só tinha... pernilongos! Muuuuuitos pernilongos, doidos a espera de alguém para atacar! Tinha bastante pedra também, mas dava para achar uns buracos para nadar e, com dificuldade, pescar, com linha mesmo, sem vara, pois vara só tinha uma. Comemos as pizzas e resolvemos tentar outro lugar. Felix decidiu que deveríamos ir a tal Punta Perdiz, mas estava um pouco longe para irmos de charrete. Aí a coisa ficou ainda mais engraçada! Felix bem ao jeito cubano, parou um ônibus de turismo que voltava vazio de Caleta Buena (uma região com restaurante e piscina natural, supostamente muito bonita, mas que não conhecemos) e negociou um preço para que levasse todos nós, molhados, para Punta Perdiz, e nos buscasse 3 horas mais tarde. Combinaram o valor de 15CUCs para todo mundo! Entramos no ônibus (fomos “convidados” a nos sentar lá atrás, para não molhar os bancos) e lá fomos nós! 

Punta Perdiz era uma região mais linda que a anterior e com bem menos mosquitos, mas sem nenhuma estrutura (na verdade há um restaurante com o nome de Punta Perdiz cerca de 500 metros antes do ponto em que saltamos do ônibus). Meu marido, que a essa altura só não queria me matar porque as crianças estavam se divertindo MUITO com Andy e seus primos, conseguiu pescar um pouquinho com meu filho, não muito, mas o suficiente para matar a vontade (um detalhe sem graça é que meu marido acabou esquecendo a única vara de pesca de Felix no local onde estávamos...encurtando uma longa história: Felix ficou bastante preocupado, pois acho que vara de pesca não seria algo fácil dele adquirir, meu marido ficou arrasado com o esquecimento, mas no fim conseguiram algum amigo que vinha daqueles lados e que “resgatou” a vara de Felix). 

Voltamos para casa e as crianças jogaram vôlei usando uma bola murcha e o portão da casa como rede. Meus filhos aprenderam mais espanhol nesse último dia de viagem do que nos 10 dias anteriores em Cuba! A comidinha caseira de Ivet, o “pastel de cumpleaños” (bolo de aniversário) de Andy e a aula de Mojito do Felix fecharam o dia com chave de ouro! Lamentamos não ter ido conhecer “Caleta Buena”, nem a “Cueva de los Peces”, mas não houve tempo e não teve jeito de sair dos “planos de pescaria” de nossos anfitriões. Motivo para voltar! 

Dia 14


O café da manhã simples e apetitoso de Ivet nos preparou para a volta a Havana. Mas antes da viagem deu tempo para uma visita ao Museo Girón, que conta tudo sobre a invasão da Baía dos Porcos (Baia de los Cochinos). Mais uma vez, muitas fotos do filhote mais velho. Como nosso vôo era no fim do dia, deu tempo de chegar a Havana, voltar a Plaza Vieja, comer de novo no La Vitrola (dessa vez marido provou o famoso prato cubano chamado de “ropa vieja”), fazermos caricaturas do marido e das crianças e subir até a Camara Obscura! 

Curtimos muito essa invenção de Leonardo DaVinci, que nada mais é do que um jogo de lentes e espelhos que projeta numa tela côncava uma imagem ao vivo de vários pontos da cidade. Sensacional! Que bom que voltamos! Roberto (que havia se encontrado conosco assim que chegamos de Trinidad, apenas para pegar nossas malas e deixa-las no porta malas do “clasico” verde-abacate) veio nos buscar em Havana Vieja para nos levar ao aeroporto. 

Lá trocamos nossos CUCs remanescentes por euros (dá para trocar tanto fora quanto dentro da área de embarque internacional) e compramos uma garrafa de rum para trazer para casa (compre após o check in, caso contrário não poderá entrar com liquido na bagagem de mão, e o preço do rum é o mesmo lá fora ou lá dentro). 

E é isso! Assim foi nossa viagem! Adoramos a experiência e criamos memórias que ficarão por muitos anos! Cuba não é um país simples, não tem “preto no branco”, não tem resposta pronta para as dúvidas que temos do lado de cá. Tenho certeza que estar como turista em Cuba, por apenas duas semanas, não nos mostra o cenário completo. Mas sinto que ir lá e ver com nossos próprios olhos, conversar com as pessoas e abrir o coração, pode nos mostrar um pouquinho do que o mundo tem certa dificuldade em enxergar, tanto de um lado, quanto do outro.

Como o texto já ficou longo demais até aqui, complemento com umas historinhas opcionais para quem curte! 

Um beijo e até o próximo relato de viagem! 

Varadero vista do hotel

Causos cubanos


- Nossos anfitriões em Havana não eram os donos da casa. A casa pertence a um casal Itália-Cuba que mora, atualmente, na Austrália. Quem cuida e mora na casa é o casal cubano Ana e Jose. Jose passa boa parte do dia em uma "finca" próxima a Havana onde cria alguns porcos e planta alguma coisa. Ana está na casa todo o tempo e, como contei, organiza um "desayuno" delicioso. Antes de trabalhar na casa ela trabalhava como contadora para o governo e ganhava o equivalente ~U$ 20 por mês. O custo padrão dos "desayunos" nas casas particulares é de 5CUC por pessoa (crianças também pagam). Não é barato, mas acho que vale o preço (e o desayuno de Ana foi particularmente delicioso). Imagino que o dinheiro recebido dos hóspedes fique totalmente com Ana e Jose e que os donos da casa fiquem com o valor que pagamos no AirBnb (nesse caso, U$ 183 por 3 noites). Ana e Jose não cozinham, portanto, em Havana, não tivemos a opção de jantar em casa. 

- Dois amigos de Jose e Ana estavam sempre na casa de Miramar. A amiga de Ana era uma senhora de uns 55 anos que tinha um ex-marido e um filho nos EUA. O filho mais novo, de uns 22 anos, estava tentando documentação legal para emigrar com a ajuda do pai (que, dos EUA, pedia o visto para o filho). Enquanto o visto não chega, ele trabalha como guia e interprete (fala inglês fluente) para hóspedes da casa de Ana. O outro amigo, um senhor de uns 75 anos, gostava muito de conversar e falar das coisas boas de Cuba. Me pareceu ter especial orgulho das faculdades de medicina, citando números impressionantes de quantos estudantes latino-americanos cursam Medicina de graça em Cuba. Também falou muito da exportação de médicos cubanos, não só para o Brasil, mas para o mundo todo. Essa saída temporária de Cuba é financeiramente compensadora: há filas de médicos querendo passar um tempo no Brasil pois, ainda que parte do que ganham seja repassado ao governo, sobram uns bons dólares para o médico e sua família. Após bastante conversa com esse senhor eu falei “Então o senhor é um Castrista convicto!” ao que ele respondeu com uma gargalhada: “Si! De los que muerden!”.

- Jose e Ana nos indicaram o motorista Roberto (genro de Jose, casado com uma filha do primeiro casamento) para nos buscar no aeroporto em seu "classico" verde-abacate de 1959. O carro, na verdade, não pertence a Roberto, que apenas o aluga de outra pessoa e faz, regularmente, um “transporte alternativo” de cubanos. O transporte público em Havana é barato, mas de qualidade ruim (ou seja, poucos ônibus, sempre cheios), de forma que vimos muitos carros como o de Roberto, passando pelos pontos de ônibus das vias principais e colocando até nove passageiros, apertados, num carro para cinco (eles vão apertados e pagam mais do que pagariam no ônibus, mas não esperam tanto). Quando tem turista na casa de Jose e Ana a vida de Roberto melhora muito: é realmente dos turistas que vem sua principal renda. Conversando sobre o sistema cubano, Roberto tinha várias críticas. Notava-se que tinha uma vida dura, de muita correria e trabalho, para manter a esposa e a filha pequena, mas nos disse que não tinha interesse em sair de Cuba, em ir para o EUA ou outro lugar. “Sou feliz com o que tenho aqui, embora seja difícil”. Nos contou sobre a história de pobreza e miséria em que vivia sua mãe na época da Revolução e completou dizendo que a mãe era castrista “hasta la muerte”, pois a vida que teve após a revolução não foi fácil, mas foi bem melhor do que a perspectiva que tinha até então.


a vida corre lentamente em Remedios

- Ernesto, nosso taxista em vários trechos da viagem, foi funcionário do governo (algo relacionado a transporte) até se aposentar há alguns anos. Agora dirige um táxi amarelo que pertence ao governo e está construindo um quarto em sua casa para colocar no AirBnB. Ele tem um filho que se formou em Letras (com ênfase em Alemão e Italiano) e que trabalha para o governo. Como “bico”, o filho trabalha de guia para turistas (especialmente alemães e italianos) enquanto se prepara para embarcar como funcionário de um cruzeiro (fará isso assim que terminar de cumprir o período que precisa para “pagar” ao governo a universidade gratuita, que são dois anos, se não me engano). Sem essa renda extra ele não teria como pagar o apartamento onde vive com a irmã, próximo a universidade. A filha de Ernesto estuda na universidade pública gratuita e teria moradia estudantil gratuita se estivesse disposta a se deslocar cerca de 2 horas, todos os dias, para ir e voltar da universidade. O apartamento onde moram custa cerca de U$ 100 por mês. O salário do cargo público do filho de Ernesto? Cerca de U$ 20 por mês. A conta não fecha, certo? Os “bicos” é que matam a questão. Mas se ele trabalha a semana toda para o governo, como ele tem tempo de sair com turistas? Aos finais de semana e, eventualmente, com atestado médico durante a semana. Parece com o “jeitinho brasileiro”, não? 

- Lourdes, nossa anfitriã em Remedios, vive com a mãe (uma senhora de mais de 80 anos) e o filho de 20 anos. Ela e o filho tocam o negócio de locação do quarto, via AirBnB e outros sites. Até uns 3 anos atrás o marido de Lourdes cuidava disso, mas morreu atropelado e ela teve que mudar a vida um pouco (entendi que até então ainda conseguia manter o emprego público que tinha). A mãe de Lourdes ganha cerca de U$ 15 de aposentadoria e seria impossível para ela sobreviver sem a ajuda da filha (mas, sendo sincera, quantos aposentados no Brasil conseguiriam sobreviver sozinhos sem a ajuda de seus filhos e filhas?). Lourdes foi uma das pessoas mais tristes que conheci em Cuba. Se notava que era uma pessoa boa, culta, tranquila, mas acho que as dificuldades e a perda relativamente recente do marido, a deixavam bastante abatida. Ela nos contou que teve uma infância e adolescência relativamente fartas, mas no “período especial” (anos 90, quanto a antiga URSS deixou de abastecer Cuba) a vida foi muito dura. Faltava de tudo, de sabão para tomar banho e lavar roupa até comida. Nos contou também que seus pais tinham pequenos negócios na época da revolução e, com a estatização de tudo, a vida deles ficou mais difícil. Lourdes era uma das poucas cubanas que não acompanhava as novelas brasileiras. Ela estava bastante antenada as notícias do mundo e nos falou que, embora muitos cubanos tenham uma vida difícil, ainda estão melhores do que os pobres de outros países subdesenvolvidos, com o Brasil. 

- Lourdes também tem um filho que trabalha com turismo, num hotel em Cayo Santa Maria. Vimos bastante disso: muitos jovens deixando de ir para a universidade gratuita ou largando emprego público para trabalhar com turismo. Sim, um carregador de malas pode ganhar em um único dia, em gorjetas, o que um funcionário do governo, com curso superior, ganha em um mês. Assim foi com Ana (ex-contadora, nossa anfitriã em Havana), com Lourdes (agrônoma, professora de escola técnica, nossa anfitriã em Remedios) e Ivet (advogada, nossa anfitriã em Playa Girón), apenas para citar alguns exemplos. É bastante triste saber que eles têm universidade pública gratuita de qualidade (há mais candidatos do que vagas, mas nada que se compare a discrepância que temos aqui no Brasil), mas a perspectiva de renda após a formatura faz com que a universidade seja cada vez menos atraente para muitos. Sentimos que eles percebem também uma queda na qualidade do ensino, tanto nas universidades quanto nas escolas infantis. O motivo é simples: muito professor deixando de ser professor para trabalhar com turismo.


Varadero e seu mar azul caribe

- Nosso taxista em Trinidad (que nos levou a Playa Ancón e para comer em Casilda) foi um cubano que havia morado 7 meses em Guarulhos, São Paulo. Ele estava doido para exercitar seu português e nos contou muito sobre sua vida, sua história no Brasil, sua tentativa frustrada de ir para os EUA (com passaportes falsos, via Bolívia) e a volta para Cuba, com toda a família: mulher, sogra e duas filhas pequenas. Segundo nos contou, ele teria ficado mais tempo no Brasil, mas o restante da família preferiu mil vezes voltar para Cuba, já que o plano de ir para EUA tinha ido por água abaixo. Pense nas opções: viver com subempregos em São Paulo, com as filhas em escolas públicas com alto índice de violência, sem amigos ou família, ou voltar para Cuba, sem nada (tinham vendido tudo para tentar emigrar para os EUA), mas com família e amigos e o mínimo para sobreviver com mais segurança? Eles escolheram a segunda opção. No fim do dia, nosso novo amigo ainda “sequestrou” meu marido por duas horas, o levou até sua casa, apresentou para a família toda e o levou a um autêntico “copo sujo” cubano (aqui em Belo Horizonte, chamamos de “copo sujo” esses botecos mais feinhos e simples) onde tomaram uma rodada de uma cerveja não-turística. Perguntei ao meu marido quanto tinha sido a cerveja e ele: “Nem sei! Ele quem pagou, mas vi que era tudo baratinho em pesos cubanos.”

- Em Trinidad finalmente conseguimos cortar os cabelos das crianças. Os meninos estavam super cabeludos e, desde o início da viagem, inventamos (eu inventei?) que “para una auténtica experiencia cubana hay que pelar los niños em Cuba”! E assim foi! Cortamos ao estilo cubano e os meninos adoraram a nova franja que, sem a ajuda de um bom gel, caia torta para o lado! Nosso barbeiro nos contou sobre o amigo que o havia ensinado o ofício e que agora vivia bem e, segundo ele, rico, cortando cabelos na Califórnia. O corte nos custou 5 CUCs para cada, ou seja, menos de R$ 25, Estou ciente que cubano não teria pago nem 1 CUC pelo corte, mas a esta altura nós já sentíamos que não fazia muito sentido ficar pechinchando em Cuba...pagamos felizes, com novas histórias e novos cabelos!

cortando cabelo ou "pelando el niño"  em Trinidad

- Felix, nosso anfitrião em Playa Girón, estava construindo mais dois quartos para alugar em sua casa. Enquanto as obras caminham, eles dormem na casa da mãe de Ivet e deixam os hóspedes nos dois quartos que já tem prontos (o nosso e outro menor onde estava hospedado um casal italiano). Felix já trabalhou como barman (daí seu mojito tão especial) e já morou na Espanha por uns meses. Enquanto estivemos lá, conhecemos um irmão de Felix que ainda vive na Espanha vendendo bilhetes de loteria e que vai e volta todo ano de Cuba para a Espanha (muitos brasileiros acham que isso não existe, mas conhecemos histórias de vários cubanos que vão e voltam regularmente a Cuba, sendo dinheiro, e não proibição do governo, o principal fator limitante: passagem aérea e custos de viagem são proibitivos para a maioria dos cubanos). Perguntamos a Felix porque não ficou na Espanha e ele foi claro: “Detestei! Aqui sou muito mais feliz! Moro no paraíso, trabalho como e da forma que quero. Não tenho nenhuma vontade de sair de Cuba.”. 

Cidade do Panamá em 5 horas


Tenho apenas uma dica para Panamá em poucas horas: Roque do Guia Panama! Achei o contato dele na internet, li o relato de pessoa elogiando, peguei telefone, combinamos tudo por whatsapp e lá fomos nós! Roque nos buscou no aeroporto à noite e nos levou ao nosso hotel (TRYP by Wyndham Panamá Centro, ótimo, R$250, com café da manhã). 

No dia seguinte, sua esposa Liliana, nos buscou 8hs no hotel, nos levou ao Canal, deu uma volta conosco por Casco Viejo, e outras partes turísticas da cidade, passou em uma loja para comprarmos chapéu e, no meu caso, perfume, e nos deixou as 13hs no aeroporto. Ambos são brasileiros, jornalistas, vivem no Panamá há 8 anos. Roque trabalha com turismo desde que foi para o Panamá acompanhando a esposa. Ela trabalhou até o 1º semestre de 2017 em uma multinacional (a mesma pela qual foi para o Panamá há 8 anos) e, pouco antes do nosso passeio, havia se demitido para se dedicar ao turismo também. Eles têm alguns motoristas, carros e vans. Atendem quase que somente brasileiros. São ótimos, simpáticos, contam muita coisa legal do país, são cultos e informativos sem serem chatos! Recomendo de olhos fechados. Busque no Facebook por “Guia Panamá” (@guianopanama). 

Conhecer o Canal era mais vontade do marido do que minha, mas fui surpreendida: é muito legal, uma obra prima da engenharia. E a Cidade do Panamá deu muita vontade voltar e ver com calma. Roque e Liliana também nos falaram muito de San Blás, uma praia paradisíaca do Panamá. Voltaremos, com certeza! Aguarde só conseguirmos bons voos! 

Ah! Para sair do aeroporto do Panamá para ver a cidade, basta estar com os passaportes em dia e o cartão internacional de vacina contra febre amarela. Lá se gasta em dólar, em espécie ou cartão de crédito (depois de 2 semanas em Cuba, o cartão finalmente saiu da carteira!).

um "clasico" todo restaurado e conservado (alguns tem até ar condicionado e nesses o passeio sai mais caro)

Dani, obrigada pelo post completíssimo, eu amei, especialmente os "causos" - impressionante como tu te interessou em conversar sobre tudo isso, e conseguiu arrancar tantas informações pessoais dos anfitriões, muito legal!! 

Como já falei aqui no blog, morro de vontade de conhecer a ilha - tenho que ir logo, antes que os efeitos da abertura façam a velha Cuba desaparecer!

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