5 de julho de 2011

Mongólia - uma paisagem saída diretamente dos cenários do filme "Senhor dos Anéis"

A paisagem na zona rural da Mongólia (que deve ser uns 99% do país) é linda de morrer. A capital, Ulaan Baatar, é um horror, parece que a cidade toda acabou de sair de um apocalipse, mas depois escrevo mais sobre a zona urbana. Agora, o que eu quero contar é sobre a beleza da paisagem mongoliana. O país inteiro parece cenário do filme Senhor dos Anéis que, pelo que eu sabia, tinha sido filmado na Nova Zelândia, mas na Mongólia eles juram que muitas cenas foram filmadas lá – não sei se a informação confere.





Na fronteira com a Rússia, toda a incomodação de sempre, tirar toda a bagagem do ônibus, passar pela imigração, revistar a bagagem e tudo mais, mas já se notava o sorriso alegre na fisionomia dos policiais, em contraposição à natural sisudez russa com que já estávamos acostumados depois de 22 dias viajando pela Mãe Rússia.



Altanbulag, a cidade fronteiriça do lado mongol, é parcialmente destruída, o fim do fim dos mundos, onde Judas perdeu as botas e, nós, os butiás dos bolsos. Depois, vieram Sükhbaatar e Darkhan. Da fronteira russa até UB são 404Km. Por esta mesmíssima rota, durante muitos séculos, caravanas de camelos levavam 40 dias para fazer a viagem Moscou – Beijing.



Aquele que nós chamamos de Gêngis Khan eles não conhecem. Aqui, “o” cara é o Chinggis Khaan, que eles chamam “Chinguis Ran”.



Trocamos alguns rublos russos por togrogs mongolianos e comemos a nossa primeira refeição (de muitas) de ensopado de carne de ovelha, com couve e cenouras e purê de batatas – um luxo, considerando que, nômades que são, os mongolianos nada plantam. A comida básica deles é carne e leite, além de tudo (absolutamente tudo) que se pode produzir a partir do leite, como todos os tipos possíveis de queijos, iogurtes, manteigas, requeijões, ricotas, cremes de leite e por aí vai...



Na Mongólia é tudo muito barato, ainda mais comparando com a Rússia. A tal refeição que eu mencionei, para 2 (comemos os 3 e sobrou), custou U$2 – beleza, uma pechincha!




As estepes da Mongólia, que eu não sabia direito o que eram, são essas paisagens que aparecem nas fotografias, morros tapados de grama baixinha que parecem intermináveis campos de golfe, não se vê o fim, parece infinito! O Pampa gaúcho deveria criar vergonha...



A impressão que dá é que o céu, aqui, fica mais perto da gente – enfim, é muito bonito MESMO! O Peg não conseguia parar de repetir o mantra que ele criou para descrever a paisagem: “Que imensa vastidão, que vasta imensidão!”



Uma coisa incrível que nós vimos foi gelo na beira da estrada – incrível sim, considerando que estávamos em junho, verão deste lado do mundo.



Atravessamos o país inteiro, de norte a sul, centenas de quilômetros, sem ver ninguém nas estradas, a não ser um ger aqui, outro acolá, e um ocasional lagarto. Suspeito que o país tenha a menor densidade demográfica do mundo. E isso que ainda estávamos no norte, bem longe do Deserto de Gobi.



Falando de estradas, tenho que comentar que, a “highway”, a principal estrada, a que atravessa o país, é um pouco pior que a BR471, de Rio Grande a Santa Vitória do Palmar, e bem mais deserta, total “no man’s land”. E falando em ger, vale esclarecer que é assim que eles chamam, em mongoliano, as tendas onde vive a maior parte da população do país. Também são chamados de yurts, mas essa é a palavra russa para designar as tais tendas.



Também é bom esclarecer que “mongoliano” é a naturalidade, enquanto que “mongol” é a raça/etnia. Por exemplo: quem nasce na Mongólia é mongoliano, mas não necessariamente mongol; e existem milhares de mongóis que não nasceram na Mongólia, e sim espalhados pelo mundo, muitos na Ásia Central.



Outro fato interessante é que praticamente não existem cercas no país, nem propriedades rurais privadas (apesar de praticamente o país inteiro ser uma enorme zona rural) – eles desconhecem esse conceito. Perguntei como funcionava a coisa e eles me explicaram: cada um chega e monta a sua tenda onde bem entende, onde parece bom para o gado. Quando a estação muda, levantam acampamento e vão para outro lugar. Que simples... (acho que vou virar nômade…aliás, acho que já somos meio nômades, afinal, 5 meses na estrada não é para sedentários!).  




Num país onde a temperatura média na maior parte do ano não ultrapassa 25 graus negativos, pegamos um calorão. Para não dizer que o país é tão deserto assim, lembro que vimos também alguns camelos, vários homens a cavalo, uns kazacs com suas águias e até um yak! Aliás, no que toca aos cavalos, uma decepção! Eu sempre ouvia falar nos cavalos selvagens da Mongólia, nos filmes sobre o Chinggis aparecem aqueles potros lindos, galopando ao vento...pois pra dizer a verdade, só vimos (e andamos em) pangarés. Cavalinhos pequenos, feiosos...




Depois de conhecer a capital, resolvemos fazer uma incursão pelo interior do país, coisa pequena, de 2 dias, até o Parque Nacional de Gorkhi-Terelj, um lugar lindo. Fomos nós 3 com uma guia e um motorista locais, numa van, os 2 uma simpatia (o Felipe gostou deles, o que me diz muito).



Na saída da cidade ainda passamos pelo Memorial Zaisan, de onde se vê a cidade inteira ao longe e, perto, um Buda gigante e um tanque de guerra.



Comemos coisas com nomes como tsuivan (massa com carne, cenoura e batatas), üürag, öröm (uma coisa feita com leite que parece uma manteiga cremosa) e o obrigatório chá mongoliano, que leva leite (até aí tudo bem) e sal (!!!!!) – deusulivre! Provamos para não desapontar nossos anfitriões, mas daí a gostar há um longo caminho...eles tomam o tal do chá salgado com leite (süütei tsai) umas 10 vezes por dia, como nós tomamos chimarrão, sem parar!



No parque nacional o cenário alpino é espetacular, diferente do resto do país porque as montanhas são de formações rochosas e, como fica a 1600m de altitude, o clima é bem mais fresquinho. Uma das famosas formações rochosas é a Turtle Rock, não preciso dizer por que, e um lugar muito bonito dentro do parque é o centro de meditação budista Aryapala, que fica pendurado numa montanha (tem que atravessar uma daquelas pontes suspensas para chegar lá).



Nosso ger, como bem definiu o Peg, era presidencial, senão real, diria eu. Superbonito, com as 4 camas todas laranjas pintadas com flores e um tecido azul aveludado em toda a volta. Chique!



O mais legal de tudo foi a simpatia das pessoas que nós conhecemos lá, do nosso motorista e da guia, e a alegria da criançada (e do Lipe). A cultura nômade é muito interessante e é o que mais vale a pena conhecer em uma viagem para a Mongólia. O pequeno viajante fez amizade com toda a criançada, jogou muita bola, viu a ordenha das vacas, os terneirinhos mamando, nós comemos e descansamos muito. A única coisa realmente desagradável, além da cama dura, é o banheiro, que eu vou me abster de descrever, já que não quero reviver aqueles tristes momentos!




De noite, fez bastante frio, e eles fizeram fogo na salamandra que fica dentro do ger – aqueceu num minuto! Com o saco de dormir e mais o forro de soft lá dentro, dormimos bem quentinhos.



No caminho de volta para UB, ainda paramos para ver umas cavernas, onde os monges praticavam o budismo escondidos dos soviéticos durante a revolução cultural. Também vimos um ovoo, que é uma coleção shamanística de pedras/oferendas para os deuses, normalmente colocadas em lugares altos. Por último, fomos no Memorial do pai da nação mongoliana, que está montado em um imenso cavalo de Tróia, com uns 40 metros de altura – coisa monumental mesmo!



Dica: se você fizer um passeio como o que eu contei aqui, ficando hospedado com famílias nômades, não esqueça de levar alguns presentinhos – uma bola para as crianças, sabonetes, chocolates, bolachinhas, qualquer coisa serve para quem tem muito pouco!























3 comentários:

  1. Show de bola, to pensando em ir para ai e viver por ai mesmo para me purificar mentalmente.

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  2. Adorei, pena que não tenho mais idade para essas aventuras, mas não custa nada sonhar.

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    1. na verdade, essa viagem é bem simples, não tem muito esse problema de idade não! aliás, a idade nunca deveria ser problema para viajar! todo mundo não pensa que somos loucos de viajar desse jeito com uma criança?!?!

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