26 de maio de 2011

Ferrovia Transiberiana - primeiras impressões

A ferrovia transiberiana – jóia mais cara da coroa dos czares russos, ainda é uma das grandes experiências da vida em matéria de viagens. Ela atravessa 7 fusos horários, 3 países (Rússia, Mongólia e China) e 2 continentes (Europa e Ásia). A ferrovia cruza algumas das áreas mais desafiadoras geograficamente da Rússia, e representa um triunfo do homem sobre a natureza, e realizar essa viagem é possível para qualquer pessoa com algum tempo, um pouco de dinheiro e um senso de aventura. Na mochila, muito bom humor e remédios variados para ressaca (não há transiberiana sem vodka).


A nossa opção foi pela rota transmongoliana, começando em São Petesburgo, na Rússia, e passando por Moscou, a impressionante capital da Praça Vermelha e do Kremlin, dos arranha-céus Stalinistas e bilionários do petróleo, parando em Suzdal para provar a medovukha, em Nizhny Novgorod, às margens do Rio Volga, Kazan, a multicultural capital do Tatarstão, Yekaterinburg, Novosibirsk e Krasnoyarsk, uma pausa imprescindível para comemorar o aniversário de 2 aninhos do pequeno viajante em Irkutsk – Listvyanka, na beira do Lago Baikal, a safira da Rússia, lago mais profundo e mais antigo do mundo, que contém quase 1/5 do total de água fresca do globo terrestre, declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, e enfim Ulan-Ude, antes de cruzar a pulsante capital da Mongólia, Ulaanbaatar, Datong, já em território chinês, terminando na Beijing pós-Olímpica em que se transformou a antiga capital imperial da China.

Com certeza não é uma jornada para quem tem pressa (a velocidade média dos trens não ultrapassa os 70Km/hora), nem são os trens particularmente glamorosos, mas uma viagem transiberiana é, certamente, uma jornada para se lembrar para sempre.

Nós não vamos enganar ninguém dizendo que viajar por aqui é navegar em águas calmas. Não é. A língua dificulta muito a comunicação, e a cara inicial dos russos é gélida. Como disse meu amigo George “I just wish they didn’t look so SAD”! É comum interpelar as pessoas na rua para solicitar alguma informação e os russos nem “ó” para nós, fingem até que não nos viram (será medo???)...

A acessibilidade para andar com um carrinho de bebê também não é das melhores – quase todas as escadarias de saídas de metrô ou de estações de trens têm rampas, mas elas não são padronizadas e não se adaptam à largura do nosso carrinho (acho que servem para bicicletas apenas).

Comprar as passagens de trem pode ser uma tortura ou a glória do nosso dia: já saí do guichê bufando de raiva e gritando para a atendente que ela era uma vaca mal-amada (em português, óbvio, para não correr o risco...), mas também já saí com vontade de beijar a funcionária, tamanha a alegria de ver o esforço da mulher para nos ajudar.

Tolerar a burocracia, a corrupção e alguns desconfortos é parte integral da viagem – mas um pequeno grau de perseverança é totalmente recompensado – a Rússia permanece sendo um país único, que todos deveriam ver por si mesmos!!! O país que criou Pyotr Tchaikovsky (O Lago dos Cisnes e O Quebra-nozes), Fyodor Dostoevsky (Crime e Castigo, O Idiota, Os Irmãos Karamazov, A Casa dos Mortos), Leo Tolstoy (Guerra e Paz, Anna Karenina), Boris Pasternak (Doutor Zhivago) e Vasily Kandinsky não decepciona.

Até parte do caminho, optamos pela classe platskartny, que é a terceira classe (existem outras piores, hehehehe), com caminhas duras em cabines abertas para 6 pessoas que, no fim dos trechos, mais se parecem com alojamentos em campos de concentração. Os trechos eram mais curtos. Mais adiante, só kupeyny (segunda classe), que são cabines fechadas para 4 pessoas, onde a gente tem mais privacidade. A diferença de preços é algo impressionante, da terceira para a segunda classe o preço é o triplo, mais ou menos! Terminada a jornada, pretendo fazer e postar uma tabela com o nosso itinerário, classes, preços das passagens e duração de cada trecho, para quem se interessar...

Em Yekaterinburg o horário é 2 horas à frente de Moscou, e já estávamos na Ásia. O obelisco que marca a divisão entre os 2 continentes fica no Km 1777 da ferrovia. É muito estranho isso do fuso horário, porque todas as passagens são compradas pelo horário de Moscou, mas em Krasnoyarsk já estaremos 4hs à frente de Moscou, e em Irkutsk 5hs à frente! Ou seja, na passagem que compramos de Krasnoyarsk para Irkutsk diz que o horário de partida é às 13h48min e o horário de chegada às 7h39min (do dia seguinte), enquanto que, na verdade, temos que estar na estação de trens para partir às 17h48min, e chegaremos só às 12h39min. Não é de enlouquecer??? Nas estações de trem os relógios também marcam a hora de Moscou, e no trem as refeições seguem o horário de Moscou no vagão-restaurante, o que significa que eles podem vir a servir o almoço às 6 da tarde!!! Que confusão...

Um dado interessante sobre a Rússia é que ela, sozinha, ocupa mais de 1/6 da face da Terra! Os 3 países interligados pelas rotas transiberianas cobrem mais de 1/4 do globo terrestre, sendo a Rússia o maior país do mundo, com a China em quarto lugar e a Mongólia em oitavo. Vamos atravessar regiões de tundra, taiga, estepe e deserto; vamos cruzar o Rio Volga, o mais comprido da Europa, com 3690Km. Para quem faz a viagem direto, sem parar em nenhuma cidade no caminho (coisa mais sem graça!), o trecho Moscou – Beijing leva quase 7 dias (6 dias e algumas horas) para se percorrer, numa jornada de 7865Km. Como nós vamos fazer alguns desvios no caminho, nosso percurso vai dar bem mais de 8000Km, e vamos levar mais ou menos uns 35 dias no total!

Bem, agora preciso parar de escrever para pegar mais um trem, desta vez para percorrer o trecho Novosibirsk – Krasnoyarsk!!! Até a próxima...

Alguns sites legais para quem se interessa por esta viagem:


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