26 de maio de 2011

mais uma da série "perrengues"

KAZAN 19h55min – YEKATERINBURG 11h55min + 2h

Essa jornada começa em Kazan com destino a Yekaterinburg.

Compramos passagens na classe platskartny, onde os compartimentos abertos comportam quatro camas (2 acima das outras) e no corredor mais duas (uma acima da outra). Nós, acomodados nas duas de cima, mais ou menos empoleirados, iniciamos a viagem tendo – nas duas camas de baixo – um senhor completamente mudo e uma moça completamente calada. Até aí tudo bem, afinal, pelo menos não nos olhavam com cara de reprovação achando que estávamos fazendo uma atrocidade com o Felipe por estar cruzando a Rússia de ponta a ponta com ele na mochila.

Estamos com excesso de bagagem, aliás, sempre estamos além da cota permitida para qualquer viajante, por conta das tralhas do Felipe, e os locais existentes para acomodarmos nossas coisas sempre são insuficientes. Com isso, coloquei o carrinho do Felipe e mais 2 mochilas pequenas no local dos passageiros do corredor, porque não havia ninguém ali, na esperança de que, como até aquela hora ninguém tinha ocupado o lugar, ficaria vago até o destino.

Ô marinheiro!!

Ledo engano, velho!!!

Às 2 da manhã entrou na cabine um russo com 3 malas!!! Claudia e Felipe nem se mexiam na sua “vasta” cama, e eu, atento, só observava o nosso novo vizinho de corredor subir e descer de sua cama, contando quantos volumes estavam no lugar reservado para a sua bagagem.




Até que resolvi falar com ele e retirar nossas coisas dali.

Fazia bastante calor no trem, e assim, eu vendo em outros compartimentos alguns camaradas russos só de cuecas e tapados por lençóis, fiz o mesmo. Enfim, às 2 da matina estava eu no corredor do trem, só de cueca e com 2 mochilas e um carrinho de bebê nas mãos, sem ter onde colocá-los!

Tomei um suador, mas consegui socar as duas mochilas debaixo das camas daqueles que não emitiam sons, ao menos em conversas, porque no ronco...meu Deus!!! Era competição de cachorro grande!

Faltava o carrinho, esse ficou atravessado entre a minha cama de cima e o bagageiro do novo colega, quem passasse no corredor cruzava por debaixo dele, até que ficou legal, nem chegava a atrapalhar.

Ao amanhecer, comecei a fazer um grande exercício. O de paciência misturado com a absorção do entendimento de uma nova cultura.

Quando acordei, Claudia e Felipe sonhavam com os anjos. O russo calado, que estava embaixo, ali continuava, parecendo uma estátua, sentado e pensativo. A moça russa havia - no meio da madrugada - dado lugar a um casal que, sentados, sussurravam.

No corredor, no lugar da cama do colega que chegou tomando conta do campinho, havia dois bancos e uma mesa (a cama debaixo do corredor se converte nessa mini sala de jantar), mas se fosse só isso seria ótimo, sobraria espaço para a gente até tomar café com tranqüilidade.

O problema era que havia três mancebos abancados na tal salinha de jantar!! Imagine o espaço que sobrou pro resto...mas, como sempre há espaço para o pior, na mesa dos meus amigos russos, UM BANQUETE!!!

Os três atracados nos seguintes itens: tomates e pepinos cortados, cebolas cruas, waffers, panquecas e um pedaço de pão que mais parecia um tijolo. Enquanto devoravam essa miscelânea matinal, bebericavam Vodka em uma xícara!

Peraí!

Mas são 8 da manhã!!!

Inútil seria perguntar para alguém sobre aquele acontecimento em pleno início do matutino náutico dentro do trem transiberiano. Ainda mais quando, de repente, foi sacado de dentro de uma sacola (agora sim!) um peixe defumado de aproximadamente 40cm!!! Mas era um baita peixe!

Cheguei a pensar em voz alta: - Eu não acredito que vocês vão comer isso aí!!

E eles, como se estivessem respondendo à minha ingênua pergunta, deram um talho no meio daquela “criança” e mandaram ver! Eu nem ficaria tão espantado com isso tudo se eles não estivessem na segunda garrafa de Vodka (segundo meu centro de informações*), adquirida ilegalmente com o provodnitso do trem.

Infelizmente, não pude registrar o cenário. Confesso que fiquei encabulado de pedir para tirar uma foto da celebração. E fazê-lo ocultamente era impossível, devido ao mínimo espaço que tínhamos para nos movimentarmos. Ainda mais quando recebemos mais uma visita, a do filho do cara de uma das camas de baixo.

Que maravilha!

Eu adoro tudo isso!

Todo mundo bem juntinho, reunido, sem entender nenhuma palavra do que dizem, cheirando a peixe defumado, e num cubículo!

Я люблю Россию!!

(EU AMO A RÚSSIA!!!)

*Informação adquirida em função de a garrafa ter vindo enrolada em um jornal, após prévio acerto, e ter passado às mãos de um dos rapazes pelas costas, sendo armazenada (por pouco tempo, afinal, o líquido evaporou em pouquíssimo tempo) atrás da perna.



depois do sufoco

3 comentários:

  1. O Lipinho vai voltar amando o busão Jaguarão - Arroio Grande!!!rsssss, beijinhos amados Anália

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  2. Claúdia vcs levam muita bagagem, isso atrai perrengues, rsrsrs.
    bjs

    Eder - Quatro Cantos do Mundo

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    Respostas
    1. Ah, tá, Eder, nem me faz rir!
      5 meses viajando pelo mundo com uma criança a tiracolo, indo da Sibéria à Indonésia, dos negativos aos 45 graus, e tu diz que 2 mochilas e 2 mochilinhas é muita bagagem???
      Passei 5 meses com um chinelo de dedo ou um tênis e a mesma jaqueta, pelamordedeus!!! kkkk
      bjos, Claudia

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