8 de agosto de 2012

Aung San Suu Kyi: no cinema, outra daquelas histórias que precisam ser contadas

Luc Besson dirige o filme The Lady, que no Brasil ganhou o título "Além da Liberdade", baseado na história da resistência birmanesa, liderada por Aung San Suu Kyi, eleita primeira-ministra da Birmânia em 1990, sem nunca ter conseguido assumir o poder, impedida pela ditadura que até hoje reina em seu país.

Localizado próximo à Índia, ao Laos, Tailândia e à China, o país atualmente chamado de Mianmar (ou ainda Myanmar ou também Birmânia) é o cenário dessa história contemporânea de sofrimento, luta, paz, coragem e amor. 

O filme mostra os acontecimentos na vida de Aung San Suu Kyi, premiada com o Nobel da Paz, narrando eventos como a morte de seu marido, com câncer, e a sua prisão domiciliar, que terminou em 2010.


Aung San Suu Kyi é a filha do moderno fundador da Birmânia, coronel Aung San, último grande líder da libertação do país, que foi assassinado pouco antes da independência, quando ela ainda era criança. 

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Casada com um estrangeiro, Michael Aris – um professor universitário britânico, passou a viver em Oxford e, longe de sua terra, teve 2 filhos. Em 1988, Suu, como é conhecida, deixou sua vida na Inglaterra para cuidar da mãe doente em Yangon, que passava por conflitos sangrentos em razão dos protestos contra a ditadura militar.

A viagem, que deveria durar no máximo 2 semanas, acabou se eternizando, pois Suu Kyi foi persuadida por partidários a permanecer na Birmânia e fundar a Liga Nacional pela Democracia. Essa decisão lhe custou o afastamento de seu marido e dos filhos, que tiveram o visto de permanência negado pelo governo ditatorial.

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O filme, que tinha tudo para ser extremamente político, acabou virando um grande romance. A luta pela democracia birmanesa foi colocada em segundo plano por Luc Besson. O roteiro, que Rebecca Frayn levou 3 anos para escrever, narra, em flashback, a história dramática da vida desta mulher. Ao fim e ao cabo, o filme é um testemunho de coragem e sacrifício.

Embora se trate de um filme inegavelmente maravilhoso, tem sofrido muitas críticas, pois não abarcou muitas questões importantes da vida política e pessoal de Aung San Suu Kyi, relegando para segundo plano os acontecimentos que marcaram a histórica luta desta famosa ativista birmanesa contra a Junta Militar, que ainda controla de forma hostil e totalitária a Birmânia. A luta interminável de Aung San Suu Kyi contra a ditadura militar e as agressões aos direitos humanos em Mianmar realmente não é tão bem retratada quanto a sua vida familiar, pois ficaram de fora vários acontecimentos violentos e extremamente relevantes, como as 2 tentativas de assassinato de que foi vítima. Os muitos anos que ela passou em prisão domiciliar também foram retratados de maneira superficial pelo cineasta.

O conflito na Birmânia nunca chamou a atenção do mundo ocidental, o que talvez tenha feito com que Luc Besson tivesse decidido deixar um pouco de lado o drama político que o país atravessou (e ainda atravessa) e abordar com maior ênfase, e de forma comovente, o romance e os sacrifícios que Aung San Suu Kyi se obrigou a enfrentar, centrando o enredo na linda história de amor entre Aung San Suu Kyi e Michael Aris  – mesmo enfrentando inúmeros desafios e atrocidades, eles deram um jeito de manter o seu amor até ao fim, travando uma dura batalha pela democratização de Mianmar.

Posso afirmar que, em Mianmar, Suu Kyi ainda é vista como uma verdadeira divindade terrestre. Me recordo de que, nas poucas vezes em que os birmaneses se dispunham (ou tomavam coragem) a falar sobre política, sempre se referiam a ela como se fosse uma santa, e no filme a sua incrível dedicação à luta democrática fica patente em vários momentos.

Em resumo, "Além da Liberdade" mostra com sagacidade e astúcia a história familiar de Aung San Suu Kyi, oferecendo, infelizmente, uma abordagem escassa dos incríveis feitos desta mulher, e mostrando, enganosamente, uma visão muito menos conflituosa do que aquilo que realmente vem acontecendo na Birmânia, desde a década de oitenta.

você não pode separar a paz da liberdade,
porque ninguém consegue estar em paz a menos que tenha a sua liberdade
Malcolm X

Em novembro de 2010, Aung San Suu Kyi conseguiu enfim a sua tão almejada liberdade, mas a luta pela democracia em Mianmar está longe de ter um fim. 

Em última análise, o filme serve também para mostrar ao mundo que atrocidades deste tipo ainda acontecem em várias partes do planeta, enquanto levamos as nossas vidinhas por aqui, tranquilos e serenos...


PS. Vou voltar ao tema em outra oportunidade, para contar das nossas (péssimas) experiências com a ditadura birmanesa, desde a censura na internet (lá, o pequeno viajante é censurado!!!), os problemas com a moeda, as dificuldades de locomoção através do país, a ridícula proibição aos cartões de crédito, a questão do boicote internacional ao turismo e o próprio temor que se nota na população quando o assunto é o governo.

use a sua liberdade para promover a nossa
Aung San Suu Kyi


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